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buena vista antissocial club

20 maio

Encontro-me agora beirando os 30 anos. É verdade que muita coisa mudou em mim, porém, como gostam de dizer por aí, o essencial continuou o mesmo: permaneço com as velhas tendências solitárias, sou a tabagista inveterada, a taciturna, a ranzinza e a beberrona de sempre, claro que noutra embalagem, mais castigada pelos excessos que sempre venerei, é verdade; entretanto, estou cada vez mais independente da aprovação da gente imbecil que não suporto há muito tempo, e gosto – por descarada presunção – de entender isso como um tipo de autonomia intelectual conquistada à custa de um número impronunciável de fofocas maliciosas solenemente ignoradas e encheções de saco vencidas, ou, em outras palavras, a aplicação de um foda-se prosseguido, perenal e, provavelmente por isso, irritante. Aliás, é bom que eu seja irritante, alguém tem de sê-lo, porra. Fico feliz em exercer esse papel. E sejamos francos: não conheço ninguém capaz de causar tanto asco pelo excesso de abjeção em tão pouco tempo de vida quanto… (Pausa dramática) Eu mesma! Quero dizer, só alguém suficientemente autodestrutiva como sou teria culhões para pular na trincheira armada com um estilingue enquanto o resto ou se esconde do inimigo, ou se borra de medo dele – ou os dois, não necessariamente nessa ordem.

É que sempre fiz esse tipinho arrogante que esbanja autossuficiência mesmo quando se está tomando bem centro do cu. Por ser algo que se tornou corriqueiro em minha vida, desenvolvi a técnica de fazê-lo com profunda indiferença e ostentando a mais cretina expressão de paisagem, como se fosse nada, ou, ainda, como se eu tivesse o rabo mais largo e profundo do universo a ponto de não sentir dor – não o tinha, claro, mas gostava de manter a imagem de brucutu e eu zelava por ela mais do que pela minha própria integridade física. A coisa funcionava mais ou menos assim: No tédio do quarto bafiento de nicotina, decidia sair porque se ficasse em casa acabaria me matando ali mesmo, então me metia para dentro de uma roupa surrada e ia encher a cara; já no boteco, misturando Nietzsche com novela mexicana e fazendo poesias dramáticas na mesa do bar, sofrendo da mais profunda decepção humana, eu pensava que talvez teria sido melhor se eu tivesse me matado em casa. Era precisamente nesse momento em que se apertava o gatilho, tudo saía do controle e a minha dignidade fugia em desabalada correria. Batata! Lá estava eu tomando no cu outra vez.

Mas até o degradante – essa modalidade que deveria ser olímpica pela simples razão de que é o que faço melhor -, requeria coragem. Estou falando daquela coragem estúpida, meio ingênua, de super-herói que se lança no confronto derradeiro sem hesitar, com os trajes emborrachados que, ainda que melhorem a envergadura, espremem as bolas. E vá lá, para espremer o saco é necessário ter muita coragem. E para ter coragem é preciso ter princípios e para ter princípios é preciso ter convicções. Para ser covarde basta existir, a coragem é de quem vive sem pegar atalhos apesar do medo, não para vencê-lo. Não que eu seja a maior entre todos os destemidos, longe disso inclusive, mas pelo menos ser quem se é exige muito mais bravura do que os atalhos das facilidades aparentes oferecidos pela sociabilidade forçada, desonesta, que preenche os espaços com mesquinharias – Como se a vida já não fosse desgraçada o suficiente para alimentarmos ainda mais esses comportamentos perversos entre nós.

É óbvio, contudo, que na época eu não pensava em nada parecido com isso e a verdade é que eu dava a minha cara a tapa à toa, por só dar, sem filosofias de botequim embutidas, sem nada de grandioso por detrás daquilo, e aguentava as porradas com altivez jamais vista, com a resignação de um mártir, – como se altiva eu fosse! -, como se estivesse disputando a final do Campeonato Mundial de Resiliência com ninguém menos do que Jesus Cristo.

Sei lá, penso que talvez por ter vivido tempo demais imersa na dicotomia de odiar as pessoas e me ver obrigada a conviver com elas a fim de que não ficasse piradona de vez, cagando de medo de que as minhas faculdades mentais fossem despachadas, sem passagem de volta, para o umbral onde residem os cérebros pifados, eu tenha logo dado um jeito de absolutamente tudo racionalizar. E de tanto racionalizar tudo, acabei reduzindo tudo a nada. Acordava porque tinha mesmo que acordar, sem nenhum propósito para ser alcançado, nada que me pusesse em movimento. Coisa alguma valia mais a pena. Dezenas de rostos que me eram familiares apenas pela circunstância de serem rostos, de resto éramos desconhecidos em tudo, compartilhavam comigo apenas o fato de pertencermos à mesma espécie, muito embora eu duvidasse veementemente disso em diversas ocasiões. Agora, adicione ao meu nublado estado de espírito permanente uma xícara de paranóia galopante acerca da loucura, uma dose cavalar de masoquismo, uma pitada de falta de amor próprio, um balde de semi-alcoolismo e voilà!, tem-se um componente explosivo de antissociabilidade inconsequente.

É verdade que muita coisa mudou, algumas foram alteradas por minha conta e risco porque assim decidi, sem mais nem menos. Outras, no entanto, faço questão de cultivar, primeiro por hábito, segundo por ser praticante da indelével arte de escandalizar em diferentes graus e caso a última opção também não dê certo, eu sempre poderei sobreviver vendendo histórias gótico-eróticas, pois onde há caninos demais e adolescentes excitados demais, há sempre a promessa de um futuro promissor. E o mais importante: Dinheiro – para comprar cervejas e cigarros, é claro.

seguindo em frente

20 nov

À certa altura da minha insana caminhada, percebi-me de frente à bifurcação. A trilha da esquerda era, a princípio, uma reta enfeitada de eucaliptos nos dois lados, tal qual a longa entrada da velha fazenda da infância, que me conduziu a qualquer coisa próxima de paz e segurança. A da direita, por sua vez, parecia ser o que viria depois da saudosa idade tenra, com as migalhas do futuro espalhadas no chão em meio aos estilhaços miúdos de algo que se quebrara – talvez a inocência, não pude identificar -, com rostos borrados e incomodamente conhecidos até onde me era possível enxergar. Espertalhona que me sentia, tomada por inclinação irresistível, dei um passo a frente em direção ao passado reluzente que me sorriu um riso lindo e tentador. Minha ação, em truque de mágica, freou-se como se ali houvesse uma parede. Tentei dezenas, quiçá centenas ou até mesmo milhares, de vezes sem obter nenhum sucesso. Debatia-me compulsivamente, rangendo os dentes e vociferando insultos. Não tenho certeza de quanto tempo insisti naquela bobagem, mas quando dei por mim, já havia completado vinte e oito anos, estava arrebentada e sentia-me exausta pelo inútil, estúpido e prosseguido esforço que me manteve estática, com surpreendente determinação, até então.

Como não havia meios de seguir por aquela estrada eleita favorita, tomei a outra por falta de opção e nada além, com uma tremenda e incorrigível cara de cu.

Uma perna depois da outra, era uma atividade bastante simples que, naquele momento, havia se transformado na mais ridícula imperícia. Recitava, mentalmente, as mais diversas frases motivacionais de agenda pois a cada passada, era acometida por uma dor aguda, cega, de aparência mongóloide e tão inconveniente quanto um parente fofoqueiro ou um vendedor de Tupperware às sete da manhã no domingo na porta da sua casa. Já estava escuro quando alcancei a civilização, então despejei meu olhar morto sobre os contornos plumbeados das edificações urbanas após o entardecer, e era tudo uma repetição odiosa da vida caipira da cidade, dos hábitos vazios, das dissimulações repugnantes… Não podia voltar mas também não queria ir em frente. Há algo de muito errado comigo, falei em voz alta quando, a bem da verdade, eu só queria berrar para o mundo a minha profunda desesperança, mas não o fiz – naquela época nunca fazia. Engoli o choro que desceu arranhando a traqueia e se instalou no estômago como uma lasanha ao molho de urânio. Erght. Regurgitei o ar quente de quase verão, precipitando o vômito que também trancafiei nos confins do organismo, só porque achava o máximo demonstrar força emocional. Era assim que costumava agir, de modo que internamente eu me assemelhava a uma prisão superlotada na diligência da tragédia subdesenvolvida.

Nenhuma ONG veio ao meu socorro, nenhum militante, nenhum defensor dos direitos humanos, eu era insignificante demais para receber auxílio, classe média demais para alguém sequer notar que eu também sofri os horrores da vida. Não há ninguém que se importe com meios-termos, com gente pela metade. Fui arrebatada pelo mais aterrador sentimento de abandono, pois não havia um maldito humanista que se dignasse a sentir empatia por mim e meus pares. Estamos sós na sordidez do mundo, lidem com isso. Ou simplesmente aprendam a conviver com a suprema desimportância das nossas existências anônimas e meramente estatísticas. E não se atrevam vir com conversa mole de igualdade diante de tamanha incoerência. Aliás, a incoerência é uma das irmãs da hipocrisia.

O céu inclemente decidiu despejar sua fúria úmida, desprovida de preconceitos, atingindo a todos e cada um. Não procurei abrigo e nem desejei que uma sombrinha brotasse em minha mão. Aproveitei a água da chuva para disfarçar o choro de impotência e solidão. Segui em frente como tinha mesmo que ser, e fui.

 

[ Dedico esse textículo aos três amigos que perdi esse ano. Pessoas muito melhores e bem mais talentosas do que eu. Ainda que não faça muito sentido eu ter sobrevivido a vocês, vou continuar só porque tem mesmo que ser e quem sabe um dia a gente se vê…]