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como nunca estive antes ou beverly hills sem celebridades, mansões, lojas de grife e palmeiras

3 set

A blusa que cai num decote velho,

velho mesmo e por isso um decote meio decadente,

em que os peitos gordos mal cabem mais,

a alça branca entrelaçada com a alça verde, numa moda de 2006 ou 2007,

sentada, escorrida, de qualquer jeito, escrevendo, vomitando giletes, tomando o vinho vagabundo de sempre,

com o resto do mundo se insultando com a minha presença repulsiva

– vergonhosa e repulsiva! indesejada e repulsiva! –

e fechando na minha cara retorcida de bêbada as portas que, custosamente, consegui abrir

quando marretei, com a própria alma, toneladas do concreto hostil e intolerante da parede rija,

imutavelmente rija, da sociedade,

e que, por isso, me forçaram a apontar um arsenal bélico de convicção e senso de justiça no meio da fuça de quem quer que fosse, mas quase nunca em meu benefício.

– Quase nunca em meu benefício, ouviram?

Não colhi nada, não obtive lucro em nada, não conquistei nada

provavelmente só por não querer conquistar ou lucrar à custa de nada que me fosse obrigado a conquistar,

nada que fosse apenas pela tarefa medieval de triunfar,

como a moral de Cruzada em que você precisa destruir algo pra conquistar seu espaço,

de ter que ser alguém na vida, seja lá o que isso signifique,

porque até onde sei, eu sou alguém nessa porra de vida há 28 anos.

– E quem vai ousar dizer que não?

Puxo pela milésima vez a alça puída da blusa velha, impaciente, ranzinza como sempre, desde a tenra infância,

passando superficialmente a unha mal feita nos lábios rachados pelo frio ou pelo descuido, já não tenho certeza,

e, honestamente, já não me importo tanto por não ter motivos pra me importar tanto, ou pra me consumir em certezas vazias sobre temas estúpidos,

e tento ficar ereta, mesmo que minha coluna responda com uma força no sentido contrário, mantenho minha cabeça magistralmente em pé pra resguardar a dignidade no alto,

sem que ela escorra no tobogã da decrepitude e me leve diretamente ao chão, deixando-me cara a cara com o sinteco.

Enquanto bilhões de bocas dizem de status, bajulação e grana,

– como se status, bajulação e grana pudessem nos qualificar ou desqualificar conforme a conveniência,

ou como se nos definissem de alguma maneira,

ou, ainda, como se abrissem prerrogativa à existência –

eu só penso em caminhar no mundo que não seja esse mundo babaca, que ultrapassa os anos 80 em exageros e acessórios inúteis,

quero cambalear na ideia lisérgica e grandiosa que erigi na minha cabeça,

tocar sua beleza terrível e a sua miséria odiosa com essas mãos habituadas aos contornos de uma cidade caipira e interiorana,

quero ouvir do mundo seu júbilo divino e seu lamento infernal com esses ouvidos cansados,

tão acostumados às vozes provincianas e tapadas de uma gente que se deslumbra por ninharias,

se maravilha com obviedades

e se deixa seduzir até com a fama corriqueira de um ex-participante de reality show!

Eles acreditam, com surpreendente convicção, estar em Beverly Hills.

Quiçá estejam e sou eu que fiquei doida – estou sempre doida em relação às mentes brilhantes.

Tudo bem, estão em Beverly Hills, mas sem as celebridades mundialmente famosas,

as mansões insuportavelmente caras,

as lojas de grife irritantemente luxuosas,

nem mesmo as benditas e sereníssimas palmeiras da Rodeo Drive.

Digo que vou mandar o mundo pro inferno com toda essa bobagem,

estou exausta demais pra qualquer coisa.

Ao acordar, talvez me arrependa – provavelmente não me arrependerei -,

confesso, um pouco a contragosto, que gostaria de me importar ao menos minimamente,

mas não estou nem aí, como nunca estive antes,

por isso eu rio, cínica, debochada, a fim de causar reviravoltas estomacais,

ou, como se diz, de mijar na cama alheia, agora tanto faz.

do princípio do fim

21 ago

O desinteresse é a arma fria e inescrupulosa da desesperança.

É olhar o rosto enamorado e não sentir a tépida esperança, mas um profundo fastio.

Primeiro a desesperança

E só depois dela o tédio, persistente

porque é contagioso, uma infecção sem cura conhecida,

um alerta máximo na OMS,

ou qualquer coisa assim que se ligue à ideia da irreversibilidade

do movimento de queda uma vez iniciado,

uma bola rolando ladeira abaixo.

À parte isso, a culpa – ou quiçá remorso,

ligado ao espírito por um vínculo indissolúvel,

permanente

e uma imagem idiota e borrada do “Eu te amo” antes poderoso,

dito com o apetite de uma besta mitológica

e que agora é só uma patética sombra distante, turva,

ou um eco, ou uma reverberação de sons retardados e deprimentes.

À luz do afeto desfeito, cata-se os estilhaços miúdos

numa tentativa com desespero infantil de rejuntar e colar

somente pra montar uma escultura ainda mais defeituosa que a que se partiu

e carregá-la com o cuidado psicótico de uma mãe neurótica,

junto ao colo oprimido e sufocado de dor.