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vocês estão indo e eu já voltei de lá faz tempo

2 fev

Bem antes de a nova onda do movimento feminista surgir e decidir que está tudo bem cagar regras por aí, se devo ou não me depilar, se posso ou não posso esticar meu cabelo, repetindo este hábito odioso que tanto criticam, eu e uma dezena de outras mulheres já esmurrávamos a cara feia da sociedade para sermos quem havíamos decidido ser. Para tal, nunca precisamos de pastores da esquerda para nos orientar e guiar como vacas hindus, quer fosse na nossa sexualidade, quer fosse na nossa visão política, quer fosse na nossa personalidade. Tínhamos pensamento independente e arcávamos com as consequências das escolhas que fazíamos, tanto para o bem, quanto para o mal, porque nos foi ensinado que temos responsabilidades individuais por ações individuais, portanto, assumi-las, além de um dever, era um puta ato de grandeza. Pasmem: Havia muita honra em não se fazer de coitado.

Para começarmos a conversa, vocês precisam entender que nós não tratávamos a cor da pele – branco, amarelo, vermelho, preto ou verde-fluorescente –  ou a classe social – A, B, C, D, E, F ou Z – como se fossem fatores dignificantes de alguém, tampouco o gênero, afinal, cor, classe social e sexo não são qualidades. Enfim, permitam-se ser concisa: Se eu disser que uma mulher é uma boa pessoa apenas por estar grávida sei que vai lhes soar absurdo e irão querer me bater, acontece que o mesmo raciocínio se aplica à suposição de que alguém é bom só por ser preto ou rico, por exemplo. Quer dizer, se eu dissesse isto estaria espancando a porra das suas inteligências, não é mesmo?

A diferença essencial é que nós não viramos autoritárias histéricas e, especialmente, anti-democráticas, porque sabíamos que a melhor arma contra os preconceitos nunca teve nada a ver com juízos de valores, ataques de ira e distorções históricas. Nos meios extremamente masculinizados em que vivíamos é que mostrávamos a nossa força, nossa fibra moral e a nossa inteligência. Era ali que operávamos as mudanças. Éramos mais ação e menos discurso, mais prática e menos repressão intelectual, mais autenticidade e menos fingimento, tudo isto em uma época em que as diferenças eram hostilizadas na integralidade, a ponto de as pessoas se agredirem fisicamente porque gostavam de estilos musicais diferentes.

Era tão óbvio e bobo ter isto em mente na época, assim como é bobo e óbvio entender a relação de causa e efeito entre o feminismo e o machismo, onde o primeiro só existe em razão do segundo. Negar este fato, é negar a própria inteligência. No entanto, transformar a igualdade de gêneros, o racismo, pobreza, entre outros, que são causas essencialmente humanas, em bandeiras ideológicas e políticas é, no mínimo, intelectualmente desonesto. É dar uma rasteira covarde nas gerações que nos antecederam, que pagaram o preço muitas vezes com a vida, e que pavimentaram o caminho para que pudéssemos estar aqui hoje, cada qual com suas crenças, tranquilos para debater qualquer assunto. Negar este outro fato, também é negar a própria inteligência, pois até o mais imbecil dos seres humanos é capaz de perceber que a sociedade mudou muito, especialmente na última década.

Como tudo na vida tem o seu revés, se por um lado boa parte da humanidade está mais livre, por outro, está inegavelmente mais hipócrita, principalmente para pertencer a algum nicho e se auto-promover, e estupidificada, já que são preguiçosos demais para ler outra coisa que não seja O Capital, e arrogantes demais para escutar e compreender outra coisa que não diga respeito a agenda da esquerda. Talvez, de alguma forma, a permissividade moderna tenha lançado luz sobre este lado obscuro de cada um, em um tiro que saiu pela culatra, evidenciando quem realmente são, expondo a faceta monstruosa escondida atrás das chatíssimas crises de bom-mocismo exageradas e forçadas, que estão subjugando violentamente existências que seriam até brilhantes, caso não fossem estraçalhadas pelo demônio do pensamento único que tem sugado tantos potenciais e talentos.

O engraçado é que, mesmo há 15 ou 17 anos atrás, muito antes destes ataques psicóticos de compaixão por tudo, nós já batíamos o pé, já cuspíamos nas mentes tacanhas e retrógradas, já impedíamos que nos colocassem na jaula preconceituosa reservada às criaturas incapazes de caminhar com as próprias pernas e pensar sozinhas, portanto, não vai ser um bando de babacas deslumbrados com a faculdade que irá conseguir nos calar. Essa cara de pau de se apropriar da voz dos outros para berrar bobagens em seus nomes neste circo de horrores não nos apetece, aliás, nós nos recusamos a sufocar ideias contrárias só para fingirmos ser melhores do que vocês. E se discordar do politicamente correto significa sermos deficientes morais, foda-se. A verdade é que vocês ainda estão indo para um lugar enquanto nós já fomos e voltamos dele umas 20 vezes.

do vício em certezas vazias

4 jan

Ana dizia ter nascido só para isto: meter-se em roubadas. No momento em que veio ao mundo – prematura de sete meses, segundo a própria – jurava ter sido agraciada com a capacidade sobrenatural para, aparentemente, complicar tudo, nada lhe escapava. Apesar do talento inato para confusão, desde pequena a garota contumaz desenvolveu, por força das circunstâncias, notável desembaraço para livrar-se das mais esdrúxulas situações em que se envolvia, fosse pela contundência das suas palavras, fosse pela sua retidão ou fosse pelas vias do esculacho de fazer matador de velhinha chorar. “É um talento natural”, esnobava.

Defender-se, portanto, foi um aprendizado natural, consequente, e em termos de blindagem, destas que vêm de fábrica e do tipo que se adquire pelo caminho, largou na frente e com o passar do tempo imprimiu vantagem. Pois como habituou-se aos solavancos perpetrados pelos reveses da vida que conseguem amarrotar a vontade, acabou por erigir em torno de si uma colossal carapaça óssea, formada a partir de feridas recentes por cima de feridas velhas, cicatrizes por cima de cicatrizes, até criar um escudo tão poderoso quanto lhe era possível, tão rijo quanto a imaginação pudesse alcançar, tão impenetrável quanto ela desejasse que seria ou que deixaria de ser, se assim lhe aprouvesse. Ao final, transformou-se em Ana, o tricerátopo fêmea.

Por isto, mas não só por isto, habitava com serenidade a solidão, primeiro como mania, delineando oportuna rota de fuga ao cotidiano exasperante para quando cansasse dele, porém, deixava aberta a prerrogativa caso se decidisse pelo retorno ao ordinário; depois pelo prazer, tendo encontrado no silêncio uma morada confortável, apaziguante, abstraindo a cólera desencadeada pela decepção humana, este desgosto implacável que lhe feria o espírito com mil navalhas. Era nesta residência etérea, feita sob medida e de inexcedível excelência, onde, finalmente, permitia-se permitir, por inteiro, sem subterfúgios de quaisquer espécies, sentindo-se indizivelmente feliz, irrevogavelmente liberta. A solidão tornou-se, pois, a sua carta de alforria, distante dos embaraços causados por esta sociabilidade forçada e excessivamente polida que leva nada a lugar algum.

Não é de se estranhar, portanto, que Ana tivesse compreendido, com considerável atraso, é verdade, que uma intimidade populosa só traz chateações desnecessárias. Como não estava atrás de nenhum tipo de compensação vaidosa que lhe rendesse reconhecimento, ainda que tardio, ainda que merecido, porque isto era comportamento assaz pubescente para uma mulher balzaquiana que tem com o que ocupar a cabeça, desligar-se das relações assassinas com suas convivências estéreis, infantilizadas, cujo traço é o primitivo comportamento de bando que estrangula individualidades, foi-lhe um senhor alívio.

Percebeu, enfim, que o limite ético destas pessoas, convenientemente flexível, mesmo que adulado e defendido como se defende e adula uma mãe, revelou-se, depois de retirado o véu que ocultava obscenas hipocrisias, como sendo o indício inaugural da patifaria com que havia rompido depois de pactuar por tanto tempo. Diante desta constatação, exultou, desfrutando incontido gozo de seu próprio valor.

Para desacreditá-la, obviamente, diziam-na maluca. Um poderoso recurso retórico que aparentemente era auto-probante já que não carecia de explicação, afinal de contas, se foi dito só podia ser verdade e havia de se acreditar. Claro que isto devia ser algo muito avançado e complexo que estava para além da sua pífia faculdade pensante. Quer dizer, desmoralizar ao invés de ter o trabalho de refutar um argumento somente para sustentar um falso ar de superioridade era mesmo algo genial e que apenas mentes competentes, honestas e dignas mostravam-se capazes de arquitetar.

Por mera presunção debochada, costumava ou dar de ombros com um riso ou endossar a constatação primitiva, entre ambas as reações, estava a sua habilidade para enxergar o humor bonachão naquela coisa toda, o que não eliminava a sua perplexidade ao observar a facilidade leviana com que faziam juízos de valores, empunhando em riste o aval da normalidade. O problema, esqueciam-se, é que este aval não prova nem significa nada, a não ser o fato de que ser normal é uma mera adequação à loucura de outras pessoas que são, por sua vez, doidas entre si. Eram incontáveis os Napoleões de hospício que esbanjavam convicções absolutas, seguros de ser perfeitamente sãos – ou perfeitamente… perfeitos!

Mesmo sabendo das consequências da sua furiosa diatribe lançada contra os proselitismos interioranos vindas na forma de represálias pequenas em dignidade, quiçá por sua natureza irrequieta que tornava insuportável ver que o tédio, mais do que uma imposição contra a qual não se pode lutar, fosse, ao contrário, deliberadamente instituído, Ana propelia-se ao embate a cada vez em que percebia o assentar geral de ânimos. Sendo assim e somente assim, tratava de sacudir a aborrecida atmosfera pacata que desacelerava as vidas, aprisionando-as em pequenos cubículos como uma criança limitada pelo bercinho. O aconchegante e familiar bercinho onde estacionaram, pararam de evoluir e permaneceram até uma idade ridiculamente avançada requerendo cuidados exagerados e atenção especial porque foram mimados demais, iludidos demais: o universo visto de um cercado para crianças tardias que se julgam superiores demais aos demais.

Com a visão de mundo cuja perspectiva não ultrapassava os limites aprendidos no ensino médio, restrita às benesses, facilidades e mimos da tenra infância, tornaram-se, por egoísmo, por vaidade, por afetação, adultos incapazes de perceber que indivíduos diferentes valorizam coisas diferentes. Um bando de pessoas melindrosas que se escandalizavam por qualquer bobagem e Ana brochava a cada ataque coletivo de histeria, espetacularmente infinita, desinformada.

Compreendeu que seu tédio inexpugnável advinha da gente viciada em certezas vazias, inconsistentes, mentirosas, que serviam apenas de alicerces para a ilusão que se auto-impunham de que eram superiores a sei lá o quê e por isto difamavam, oprimiam, humilhavam e ridicularizavam quem julgassem inferior. Era precisamente esta quantidade de merda que ouvia que lhe abria prerrogativa à preguiça, aliás, seu ouvido não era privada, caralho.

Sentia, cada vez mais, talvez por ser suficientemente chata e persistente, o pulso direito perigosamente livre para desembainhar sua espada esferográfica de justificada retribuição e eviscerar as cretinices. Anterior aos golpes desferidos sem misericórdia, era tudo senão a indecente calmaria bovina, o silêncio que antecedia a porrada. Neste preciso momento, suas respostas eram obtidas e pressentidas, e custavam-lhe tanto quanto quando se encontrava imersa na incerteza.

Para irritá-los todos decidiu, portanto, ser ainda pior do que achavam: queria ser ainda mais escrota, ainda mais suja, ainda mais bêbada, ainda mais depravada, ainda mais grossa, ainda mais insuportável, ainda mais sincera, ainda mais inconveniente, ainda mais irritante, ainda mais filha da puta, ainda mais (adicione o adjetivo aqui) (e aqui) (e aqui) (e aqui)…