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a triste história de olívia (que não era triste assim)

9 set

Maria Antônia soube através de Rafaela – uma roedora infalível dos pormenores da vida alheia – que precisava “correr rápido, muito rápido” até sua casa, pois Olívia beirava um surto psicótico. Ou que alguma coisa maligna a estava acometendo, não soube explicar, mantendo-a em coma na vida, como se estivesse aprisionada em dois mundos e de lá não conseguisse sair, em uma espécie de torpor nebuloso que lhe furtava a sanidade a ponto de não discernir o pão velho, que vez ou outra comia, do cocô que fazia. Uma confusão assaz degradante.

Amiga fiel e devota que era, pegou sua bolsa e saiu alvoroçada a fim de tirar essa história a limpo. Lá chegando, Maria Antônia esbugalhou os olhos como se lhe fossem saltar da cara ao se deparar com uma multidão de pessoas que nunca nem sequer poderia imaginar que estariam ali. Resolveu juntar-se à força-tarefa reunida por Rafaela em sua casa e sentou-se no braço do sofá dela. Pôs-se a ouvir atônita, incrédula e aterrorizada, as informações confusas que estavam sendo repassadas.

Muito se especulou a respeito da condição da moça, outrora expressiva, que jazia lívida, vagueando pelos cômodos do pequeno apartamento, com olhos frios e mortos, caminhar fantasmagórico e gestos que de tão dispersos, resultaram em mais da metade das louças quebradas em que pisava em cima, transformando o chão em rubra lama viscosa de sangue, cacos e sujeira.

Diziam que andava abúlica, indiferente e flutuando magicamente na realidade, com o corpo cá na vida vivida e a mente lá, alhures distantes, no lúgubre mistério dos limiares da vida morrida. Vozeava absurdos ora tragicômicos, ora fantásticos, e rabiscava a parede até sucumbir à exaustão da carne. Depois executava compulsivamente as mesmas ações outras centenas de vezes. Passando-se, assim, um tempo que não conseguiram determinar.

Prediziam por aí que, “Deus-me-livre-guarde”, talvez já até estivesse morta! Uma fonte pra lá de confiável que atendia por Júlio – cujas credenciais mesmo hoje, depois de infindas tentativas vãs de verificação, são obscuras -, passara de bicicleta em frente à sua casa e afirmara pálido e arrasado, porém resoluto, que sentira “o inconfundível cheiro da morte”, muito embora ele nunca tenha estado frente a frente com um cadáver em decomposição e que, portanto, não tinha a menor ideia do que estava falando.

– Mas como assim? Será que a Olívia não percebe que há muitas pessoas que a amam? Disse Sandra, um conhecido desafeto da moça que nunca explicou porque participou da reunião, dirigindo um olhar retilíneo pela sala pra atingir a todos, mas sem cruzá-lo com o de ninguém, especialmente com o de Maria Antônia, que a qualquer momento poderia sacar uma submetralhadora e escorraçá-la de cabo a rabo.

– Ah, mulher mimada é assim: acha que o mundo gira ao redor dela, e quando não recebe atenção, dá esses chiliques suicidas pra todo mundo ficar atrás. Disse um rosto que, nem de perto, era familiar à Maria Antônia, que era a melhor amiga de Olívia.

– Eu juro pela vida da minha mãe que eu senti o cheiro da morte! Júlio repetia incontáveis vezes, como se mais ninguém estivesse ali, atropelando as conjecturas de modo bastante histérico e irritando a todos.

– Alguém cala a boca desse cara ou eu vou calar do meu jeito! Avisou a voz furiosa de Sandra.

– Gente, vamos acalmar os ânimos… Brigar não vai nos levar a lugar nenhum. Rafaela se manifestou enquanto abria uma lata de cerveja.

Após suspiros impacientes e respirações profundas, Rafaela prosseguiu a reunião e discursou em tom assertivo que, depois de se consultar com uma alma iluminada muito entendida desses casos que a ciência não estuda como se deve, alegando que ela também era uma fonte extremamente confiável, descobriu que era possível que Olívia estivesse condenada a viver a eternidade imersa nas sombras por ter sido tocada por algo indizivelmente mau.

– Deve ter arrumado esse encosto em algum boteco lazarento! Todo mundo sabe que ela não passav… desculpa, não passa de uma beberrona inescrupulosa – o rosto desconhecido caprichou na entonação do verbo no presente. Mais cedo ou mais tarde ia fazer alguma merda! Acrescentou claramente exaltado.

– Não interessa! Mesmo que tenha acontecido alguma coisa, ela precisa de uma despedida decente. Ou você ia querer ser entregue à sua família como um presunto podre? Rafaela não se conteve e apelou ao lado emocional da coisa, tocando a quase todos profundamente, que refletiram e acenaram positivamente com a cabeça concordando com ela, que, por sua vez, sentiu-se mais que vitoriosa, mas extremamente eloquente.

Elencaram, inclusive, a possibilidade de que Olívia, em meio à crise dos trinta anos, tivesse feito o mesmo pacto que fez a Xuxa, mas que, por um ínfimo equívoco de pronúncia, evocara a entidade errada que a transformou em um cadáver que esqueceu de morrer, e que essa era a razão pro cheiro pútrido, alegado pelo convincente Júlio, rondar a residência amaldiçoada.

Outra corrente ideológica surgiu e suscitou uma hipótese terrena e, na medida do possível, mais lúcida do que as outras. Tocando no ponto que foi a abrupta ruptura do relacionamento de dez anos da Olívia, e que, segundo os autoproclamados Neo-Racionalistas, ela havia sido devastada pelas próprias emoções, algo comum às mulheres, “segundo o próprio Descartes em pessoa” diziam, e sofria não da decepção humana que costuma abalar os homens, mas de decepção amorosa.

– A dor de coração – iniciou Rodolfo, o articulador central de mente perspicaz que ainda não havia tido espaço pra explanar sua grandiloquência filosófica – afeta as mulheres de forma profunda, praticamente irreversível, porque não estão habituadas à racionalidade, são pouco lógicas, e em razão disso, chagas são abertas e o sofrimento lhes consome.

Verdade! Uma voz subitamente débil ecoou no cômodo imenso, e que por ser imenso o sujeito achou que seria fantástico gritar pra ser ouvido. Minha bisavó Dolores, prosseguiu entusiasmado, sofreu do mesmo infortúnio depois que seu marido, meu bisavô Onofre, a abandonou por uma viúva do vilarejo vizinho. Juro! Li nos seus diários!

Fez uma pausa dramática, engoliu o choro soluçado, e despejou um olhar entristecido em direção a um ponto na parede do outro lado da sala.

– Que foi que aconteceu? Hein? Responda, Pedro! Arguiram todos, curiosos e afetados porque se interessavam mais por histórias de tragédias pessoais do que pela verdade chata, sem detalhes fascinantes que mesmo sendo pouco críveis, tornam tudo mais interessante. Pura balela, afinal, a boníssima dona Dolores, como fora conhecida em Rio Preto, além de não ter sido abandonada, a pobrezinha nunca poderia ter escrito um diário porque era completamente iletrada – Por vontade do esposo, que a mantinha na ignorância a fim de que não se revelasse melhor do que ele, que não passava de um bronco que herdara uma grande fortuna sem ter o menor talento pra conduzir os negócios.

Depois de explanar sua mentira escabrosa por quase uma hora sob os olhos atentos de todos, respondendo a questões relevantes entre uma ponderação e outra, Pedro estava ciente de que havia comovido o suficiente e se posto em evidência a ponto de passar a ser considerado com carinho, empatia e condescendência, escutou, inclusive, dizeres de “precisamos quebrar esse ciclo”,” você abriu nossos olhos pra um problema secular”, finalizou com falsa modéstia: – Expus essa história particular apenas para fins esclarecedores, como adendo ao panorama traçado por nosso companheiro Rodolfo.

Algumas palmas foram ouvidas e rapidamente silenciadas com olhares repreensivos, como quando se ouve uma risada inapropriada em velório, que se dissolve pela reprovação geral em degrade de som até de dissipar no ar, restando somente constrangimento e um fugaz rancor.

Ao cabo de longas oito horas, esgotadas todas as possibilidades, discutidas todas as possibilidades, mastigadas todas as possibilidades, deglutidas, regurgitadas e mastigadas de novo, encontravam-se todos, sem exceção, intelectualmente exauridos, amplamente embriagados – ainda que a bêbada inveterada fosse Olívia – não obstante, absolutamente decididos sobre os procedimentos investigativos que seriam executados dali pra frente pra tentar salvar a colega de si mesma – já esquecida àquela altura do campeonato. Assim como Maria Antônia, que depois de ouvir tantos impropérios, elegeu-se heroína ao fim de duas horas sofríveis e foi embora proferindo pragas rua afora, sem que nenhum dos presentes desse conta de sua ausência.

Rafaela propôs comandar ações de divulgação na internet, contudo, só se lembrou de que havia assumido o pesado papel de liderança somente no dia seguinte, ressaqueada e sob os escombros de sua insignificante existência.

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– Quem sou eu? Estática no meio do quarto, Olívia se perguntava insistentemente em voz alta, com aspecto de doida varrida, sibilando o “s”, alterada que estava. Quem sou eu? Quem sou eu que bebo uma cerveja agora e outras tantas desde cedo? Quem sou eu? Quem sou eu? Repetia como se esperasse a resposta de alguém que poria fim a sua agonia. Uma bêbada pra muitos, pra maioria!

Dirigiu-se vacilante ao espelho do banheiro, onde podia ver apenas o reflexo do ébrio rosto rechonchudo, que lhe permita ignorar o resto que estava igualmente fora de forma, e prosseguiu no aguardo da solução final balbuciada por algum poder superior à espreita no universo.

– Quem, caralhos, sou eu? Não posso me decidir burra, nem ao menos inteligente. É. Estou na média. Sempre estive na média. Vivi na média de tudo, absolutamente tudo na vida. Que porra! Xingava palavrões vulgares, arrastando os dígrafos, e fingindo arranhar o rosto que já não suportava mais ver. Fingia porque não tinha coragem de executar seu ímpeto violento impulsionado pelo excesso de álcool, não queria piorar o que já estava ruim.

– Quem é você, sua xexelenta aí no espelho? Gritava consigo mesma, desnorteada, e calou-se. Adjetivos me definem e me definiram durante toda a vida. E só agora que me dei conta! Só agora percebi, aflita, que fui reduzida a uma classe gramatical incontestável, seca, e com o aval do Professor Pasquale, esse escroto que nem ao menos teve o desprazer de me conhecer. Quem sou eu? Repetiu uma última vez, arruinada, e logo respondeu: Sou toda adjetivos secos, incontestáveis, insuportáveis e intragáveis.

Era de dar dó o seu transtornar solitário, desesperadamente solitário. E deu prosseguimento ao embate feroz com a própria consciência:

– Passou-se já bastante tempo desde quando arbitraram sobre quem eu deveria ser que até me embaralho sobre o que eu deveria ser pros outros. Não consigo mais me lembrar de quem requeria o quê! No fim dessa merda toda, de tanto me dizerem quem eu era, o “quem sou” virou poeira numa mobília velha em uma casa esquecida de sombra ancestral.

Desabou num choro infantilizado, esticando a camisa velha enquanto ouvia o estalar das costuras se soltando, compondo a sinfonia funesta que inundou a casa, preenchendo todos os espaços vazios. Estava tão confusa como quando resolveu que iria escrever, entrementes, decidiu que estar assim poderia ser um ótimo ponto de partida pra recomeçar.

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Rafaela, por sua vez, era uma jovenzinha enjoada de modos imperiosos que amava se dizer assídua em questões relevantes. Achava o máximo se meter em tudo, menos nas tais questões relevantes de que se vangloriava por aí porque dava trabalho demais. Por detrás de todo o teatro encenado por ela, revelava-se alguém no mínimo filho da puta, e cujos desvios de caráter, ainda que pudessem ser mais do que óbvios a um olhar clínico, eram facilmente escondidos por pequenas crônicas engraçadas recitadas em mesas de bar, repletas de adicionais humorísticos, com entonações exageradas, que faziam com que parecesse não haver nada de mau.

Alguns mais complacentes irão argumentar a favor e contar sua triste história de vida. Filha de um pai déspota, violento, depravado e incapaz de proferir uma mísera vírgula que tangenciasse a realidade, e de uma mãe completamente ignorante, orientada sexualmente desde a infância a deitar-se com um homem rico e engravidar, Rafaela, ainda miúda, teve no seio familiar as vivências que viriam a definir sua índole.

Em meio às revistas pornográficas do genitor e as conversas esgoeladas sobre técnicas femininas utilizadas pra dar prazer ao seu homem durante um boquete, cresceu muito bem informada sobre os assuntos que não lhe deveriam interessar, por uma questão de maturidade, até idade mais avançada.

Conviveu diariamente com dissimulações e mentiras tenebrosas e aprendeu a dissimular e a mentir com equivalente competência monstruosa. Aprendeu a chorar sem qualquer pontinha de vontade de forma tal, que apiedava o mais duro dos corações em poucos segundos. Divertia-se com isso em seu íntimo e acabou transformando o simples ato em arte, sendo ela o maior expoente de que se tem notícia. Aprimorou sua expressão imaculada ao mesmo tempo em que treinava sua resistência mental quando precisava negar algo até a morte. E negava, decidida e convicta. Por essas e outras, houve quem alegasse traços firmes de sociopatia.

Enfim: Tudo em Rafaela não passava de representação. Propagava no mundo uma versão melhorada dela mesma, escondendo particularidades embaraçosas de que não se orgulhava e passava a vida engambelando as pessoas, por pura vaidade, embora o medo da solidão talvez fosse o principal motivo, especialmente por ter consciência de que não valia nem dez centavos.

O problema é que ultimamente andava ocupadíssima na tarefa de desvendar o mistério de Olívia pra se promover, afirmando que por valorizar a amizade que um dia tiveram é que estava tão imersa nos debates virtuais que espalhou pela rede, enriquecendo-os com minúcias, até então secretas, da vida de Olívia, mas “somente com a finalidade de chegar à verdade”, e repetia essa frase diversas vezes com sua habitual falsa inocência até que ela mesma acreditasse no despautério.

Contou toda sorte de detalhes constrangedores: paixões humilhantes que se devem levar pro túmulo por uma questão de honra e dignidade, músicas que tocavam a alma dela, sonhos, ambições, medos, fobias, deslizes e deu ênfase às desgraças pessoais. Jurava por Deus e por Nossa Senhora que não havia feito com o propósito de expor ninguém ao ridículo. Claro, afinal, à Rafaela, uma moça carismática e agradável, seria impossível apetecer esse tipo de indiscrição, a não ser que fosse por uma causa justa em que a integridade física de alguém estivesse em jogo.

Era absurdo. Olhando pra trás, a situação toda era um espetáculo do absurdo!

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Do outro lado da cidade, Maria Antônia, estarrecida com o circo que fora armado, ainda não havia conseguido se comunicar com Olívia pra contar o que estava acontecendo. De cabeça cheia, saiu pra comprar cigarros. Cruzou com uma adolescente que rebolava os quadris e arrastava o calçado paupérrimo no chão, e só depois, sendo assim só depois de passar por ela, percebeu que não se tratava de uma adolescente consciente dos seus atributos físicos, mas de uma criança metida em seu uniforme vermelho de primário. Quis indagar a mãe, presenteada com a maternidade precoce, sobre o dever de colocar crianças melhores no mundo. Mas não eram nem sete horas da manhã, logo, estava cedo demais pra se indispor.

Mentalmente, começou a tecer um discurso inflamado em defesa de Olívia. Lembrou-se de que a amiga, com o passar dos anos, havia dominado a técnica de ofuscar suas qualidades através do seu comportamento errático pelo simples prazer de escandalizar em diversos graus. Sabia também que causar asco em quem sempre havia incutido essa sensação nas duas, não se tratava de mera vingança, não, Olívia era esperta demais pra isso e não se acovardava.

Sorriu maliciosa. Finalmente lhe ocorreu que era bem provável que Olívia estivesse apenas ocupada orquestrando uma diatribe contra os libertinos pudicos, que atendem por hipócritas, por reles fofoqueiros e também por roedores dos pormenores da vida alheia. Não ocorreria uma batalha épica em um descampado com baionetas e berros de motivação, pelo contrário, seria uma guerra tácita, travada nos limiares dos preconceitos de cada um.

– Um maço de Carlton, por favor. Pediu com o sorriso até então estampado na cara e recebeu de volta a cordialidade do rapaz do caixa, que acreditou ser tudo por ele. Ciente do breve equívoco que não se prestou a desfazer pois não fazia o tipo que destruía o dia de alguém por só destruir, foi-se embora dali satisfeita. Estava agora espirituosa e julgou necessário ir à casa de Olívia.

Enquanto caminhava tão tranquila quanto lhe era possível estar, pensava na cagada monumental que Rafaela estava arquitetando, em qual momento oportuno ela desferiria o golpe. E riu por avaliar a situação por uma ótica militarizada, na perspectiva de um arqui-inimigo extremamente poderoso e letal, que espera pacientemente o momento da investida.

Pensou que se o tiro saísse pela culatra, Rafaela usaria de artifícios dramáticos pra se eximir da responsabilidade pelos seus atos. É, ela tinha essa mania estúpida de se acovardar sempre que a vida exigia hombridade e apertava pro seu lado. Uma fraca e uma mentirosa, isso é o que você é! Resmungou em voz alta com honesta impaciência. Assistir aquela cena patética que a sujeita fazia, observar as marcas de expressão que se construíam maquinalmente na cara dela, retorcida em autopiedade, era deprimente, continuou a digressão, dessa vez em silêncio sepulcral.

Nem a própria Maria Antônia, que tivera uma vida de privações severas, envolta em uma atmosfera venenosa de conflitos que terminavam sempre com a participação especial da polícia e os vizinhos no auditório, conseguia utilizar artifícios vulgares pra se esquivar de coisa alguma. Pro bem da verdade, ela não tinha o menor talento pra artes cênicas aplicadas ao cotidiano, escapava-lhe a lábia de ator canastrão de pornô-chanchada. Aliás, nisso era reconhecidamente uma apedeuta.

Parou em frente ao prédio de Olívia, conferiu o horário no celular e resolveu que seria inconveniente mesmo, que se dane.

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O toque ruidoso do interfone ressoou.

– Céus! Contorceu-se na cama encharcada de suor, tentando se desvencilhar do emaranhado de lençóis e colchas em que se deu um nó, debatendo-se contra o colchão, deixando as pernas retíssimas irem de encontro à cama, bastante exasperada.

Cerca de dois minutos depois: a campainha desesperadora.

– Cristo! Bateu sentada na cama, embolada nos lençóis como se vestisse uma túnica grega. Levantou-se aos tropeços, pisando no tecido e escorregando, catando cavaco, com muita sorte conseguiu alcançar a maçaneta, ao som de um “Uh!” aliviado.

– Abre logo essa porta! Ouviu do outro lado e reconheceu a voz que lhe era familiar. Abriu, embaraçada pela vestimenta clássica totalmente inapropriada pra ocasião e riu um riso amarelo pra outra, que não tardou, escorreu pelo batente da porta até se encontrar agachada a gargalhar, enquanto apontava pra Olívia e secava inutilmente as lágrimas que escorriam em cascata pelo rosto.

– Ah, vá! Para de show e entra logo pra eu fechar a porta. Anda! Disse fazendo gestos como quem enxota um cachorro astuto e levado antes que ele faça merda.

– Mas o quê…? Revistou a sala rapidamente e viu que, à exceção da enorme quantidade de latas de cerveja espalhadas, tudo parecia como sempre foi: uma bagunça organizada.

– Ahn? Mas o quê o quê? Retrucou já sentindo a pontinha de malícia contida naquela visita inusitada logo cedo. O que você veio fazer aqui essa hora, hein? Veio me inspecionar, é? Já disse que estou bem, é verdade, dentro da medida do possível. Foi melhor assim, nós não nos amávamos mais, você sabe que essas coisas acontecem o tempo todo. Emendava uma frase na outra sem respirar e prosseguia. Está tudo bem, você não precisa se preocupar desse jeito, não existiam terceiros na nossa relação, se esse fosse o caso é evidente que você poderia se preocupar pra caramba, você seria a primeira a saber, você e a torcida do Vasco, porque eu ia estar na página policial depois de matar o desgraçado atropelado umas mil vezes! E riu gostoso. Erght, que gosto de borracha queimada na boca. Ei, por acaso você teria um kit ressaca nessa sua mala que carrega por aí? Ah, você é um anjo na minha vida, sabia disso? Sabia, claro! Para de rir de mim e desembucha, fala alguma coisa!

– Olívia, você já pensou em se manter sóbria nessa primeira semana? Quero dizer, você faz ideia do que está acontecendo no mundo lá fora, pelo menos?

– Já pensei, já tentei e não consegui. Estou bem, mas tem sido duro, fomos casados por uma década, compreende? A presença dele está em todo esse apartamento financiado que nem acabamos de quitar e… Desabou novamente em um choro compulsivo.

Foi conduzida gentilmente até um banquinho amarelo na cozinha por Maria Antônia que esperou que ela se acalmasse pacientemente, soluçando e limpando a coriza na ponta do lençol, arqueada e patética. Depois deu uma pausa pra recuperar o fôlego.

– Essa noite foi a noite mais difícil e me permiti sofrer de verdade, sabe? Enchi a cara com meu dinheiro, coloquei Un-break My Heart na função repeat e cantei na escova de cabelo na frente do espelho aos prantos… pra falar a verdade acho que ouvi só essa música até de madrugada. Maria Antônia se divertia com aquele papel ridículo a que a amiga havia se sujeitado.

– É verdade, fiz isso tudo. Folheava os escritos da noite anterior em que se viu entregue à fossa amorosa do jeito que já não se permite mais hoje em dia, porque é demasiado brega e exagerado. Olívia era exagerada e brega, adorava se render às emoções quando sentia que era necessário, sem tabus. Normalmente, alguma coisa boa saía dali.

Houve um hiato onde ambas refletiram separadamente sobre suas questões, distantes. Olívia virou a cabeça em direção à amiga e perguntou:

– Mas me conte, o que realmente você veio fazer aqui uma hora dessas? Já vi em velórios rostos mais amistosos que o seu. Esboçou um sorriso desajeitado, porém sincero.

– É que ouvi boatos e rumores apavorantes sobre o que estava acontecendo contigo e como não consegui falar com você, resolvi dar uma passada aqui pra esclarecer as coisas.

– Boatos, boatos, boatos… suspirou reclinando-se até a parede gelada, cheia de preguiça pelo o que estava por vir.

– Não debocha! Falaram até que você poderia estar morta!

Olívia gargalhou em estrondo.

– Eu? Morta? Ainda não chegou a minha hora, meu bem. Pra infelicidade de muitos e sua profunda alegria. Mas me faça um favor? Não me conte mais nada.

– É a Rafaela… ela ficou sabendo que você andava reclusa e elevou o seu sumiço ao patamar mais cinematográfico que você possa imaginar.

– Ah, me poupe dessa energúmena e me conte algo que seja novidade! É só isso que essa lunática sabe fazer. Não me interessa o que ela está dizendo por aí. Se há alguém nesse planeta que ainda dê credibilidade ao que ela defeca pela boca, é porque é igual em caráter, quer dizer, na falta dele.

– Você tem razão. Agora, eu sei que você é uma vanguardista nata, que adora esse lance Greco-romano, mas… dá pra tirar essa túnica clássica e botar uma roupa que não me deixe com tanta vontade de zombar da sua cara?

Quando pensou que não havia mais nada que pudesse ser revelado acerca de Olívia, descobriu outro detalhe daquela mulher arrebatadora que lhe dedicava sua amizade despretensiosa e franca: não perdia tempo com diatribes, nem se debruçava sobre possibilidades pra articular planos maquiavélicos contra quem quer que fosse. Uma pessoa de hábitos simples, quase ingênuos, que se deixava viver, e vivia. Mesmo convivendo com o vozerio ruidoso afirmando que Olívia fazia tudo da maneira mais errada possível, Maria Antônia sabia que aquela era a maneira dela, genuinamente dela por fazer parte da sua natureza. Admirava-a também por isso: Olívia era leal a sua essência, algo que ninguém conseguiria roubar e destruir.

Riram juntas. Nunca mais tocaram no assunto. Já Rafaela, morreu no esquecimento.

suzana & ronaldo

23 set

Ronaldo disse a ela, com toda seriedade cabível ao seu teatro habitual, que só queria protegê-la da dor da verdade. Ele costumava dizer esse tipo de coisa panaca sempre que não tinha argumentos que sustentassem as suas escolhas, já que assumir responsabilidades nunca fora nem de longe seu melhor talento. Pra executar a esquete com maestria, fazia questão de que seu rosto adquirisse certo ar de inocência infantil, retilíneo, franco e declarado, de modo que quem o olhasse não visse um aspirante a malandro acovardado pelas consequências, mas uma criança refugiada de algum conflito horroroso no Leste Europeu.

O corpo curvado pra frente, cara a cara com Suzana, que examinava com desprezo o esforço sobre-humano do rapaz, tentando convencê-la de que havia alguma dignidade afetuosa por detrás das merdas que ele cagava pela boca como se ela inteira fosse uma privada, de que mentia, insultando sua inteligência, somente por amor. Depois arquitetava duas lacrimejadas impactantes – ou três, dependendo do grau do erro -, forçava o rosto contra o dela pra receber um beijo porque assim tudo ficaria bem. Um beijo selaria a conversa, inocularia a gravidade da deslealdade, dariam as mãos, tomariam cerveja discutindo futebol ou basquete e ele não seria obrigado a se encarar de frente, ouvindo da sua mulher que ele era um mostro e ter de reconhecer nele mesmo o monstro sobre o qual ouvia. Admitir dá trabalho. Ele não queria ouvir, continuava apenas se enganando, distorcendo a verdade, porque assim teria o respaldo necessário pra continuar a ser um canalha. Escolhera o caminho mais fácil porque sofria de preguiça moral. Suzana se deu conta, num estalo, de que havia diagnosticado a nova síndrome do século que assola a humanidade aos milhões.

Ela não acreditava, ele sabia que não, aliás, ela nunca mais acreditou em nada desde muito tempo atrás, o que ele também sabia, embora sua consciência não se incomodasse nem por um momento a não ser que o incômodo o afetasse diretamente. Mas Suzana aceitava o que lhe era oferecido por uma malícia da esperança de que “amanhã vai ser diferente, eu sei, ele prometeu”. Ia embora pra casa com o coração apertado, membros dormentes, veias e artérias congestionadas de dor. Ronaldo, por sua vez, estufava o peito triunfante, orgulhoso por ter se safado outra vez e seguia a vida cheio de razões pra tudo, de justificativas pra tudo, de explicações prontas pra tudo, de indignações pra todo questionamento que recebia já na defensiva.

Os meses se consumiram rapidamente e o amor de Suzana parecia se extinguir na mesma cadência alucinante, encontrava-se preso por um fio tensionado demais que poderia romper a qualquer instante. Disse isso a Ronaldo, que tomou como uma ameaça vazia de uma mulher rancorosa. Mas Suzana, ao contrário, não enganava o homem vitimizado a sua frente, não dizia por dizer, não amava por amar e nem desamava por desamar. Avisou porque tinha que fazê-lo, porque sua consideração por ele a direcionava pra completa franqueza.

– Eu já não te amo mais como antes, Ronaldo. Você está destruindo meu sentimento.

– Eu sei…

– Você voltou ao marco zero.

– Eu sei que todo o esforço que eu fiz pra fazer você confiar em mim foi por água abaixo. Errei de novo. Eu só te faço mal… Eu sou um merda!

Esse era o grande truque de Ronaldo: dizer mentiras próximas da verdade, conferindo um ar de respeitabilidade irônica pelo suposto arrependimento.

– Você não é um merda, só age como um merda. Mas estou inclinada a te dar outra chance se você estiver disposto a me reconquistar, a ser honesto comigo.

– Suzana, eu te amo. Nunca amei ninguém assim. Sou capaz de dar a minha vida pela sua! Prometo que nunca mais vou te deixar no escuro, não tenho porquê fazer isso. Nunca tive. Sei que se estamos assim, se você desconfia de mim, é por eu ter mentido, coisa que nunca deveria ter feito.

Suzana, otária que era, depois de ouvir as cafonices ensaiadas de Ronaldo e que realmente gostava de escutar, acabava sempre dando outra chance, argumentando que as partes boas faziam os problemas serem irrisórios. Mas não eram. Ela aprendeu com o namorado a mentir pra si mesma. Ronaldo acreditava que sempre seria perdoado, que sua parceira estaria sempre ali disposta a desculpar e a tentar passar por cima porque sentia um amor maior do que o mundo. Suzana acreditava que toda vez seria diferente porque ele seria capaz de morrer por ela e isso era um amor maior do que o mundo.

Exaurida pelas batalhas diárias que lutava sozinha e pelos dois, ela assistiu Ronaldo decidir romper o fio que mantinha seu amor por perto e deixá-lo partir. Ele nunca se explicou, ela também não procurou nem saber. Sentia-se consumida demais, exausta demais, cansada demais pra requerer qualquer coisa por não ter certeza de que ouviria a verdade, ao menos pra variar um pouco. Ronaldo era só um moleque de quase trinta anos e Suzana era uma mulher de quase trinta anos. Talvez essa fosse a tal diferença irreconciliável que atropela tantas vidas promissoras por aí.