Arquivo | julho, 2016

o bom filho à casa torna – parte I

22 jul

Eu fitava, o mínimo ousadamente possível, seu nariz adunco de ave de rapina “três vezes quebrado”, ela repetia para justificar a leve deformação adquirida a fim de que soubéssemos da sua beleza anterior às fraturas e que, preciso admitir, tendo eu mesma contribuído para o incômodo calo ósseo durante minha infância de regular veraneante no litoral do Espírito Santo, quando, descoordenadamente, bati com o remo do caiaque que ela escoltava bem no meio da sua fuça, quebrando pela última vez o seu nariz que lhe atribuía a feição cômica quando aliado aos seus trejeitos espevitados de quem não suporta o ócio, mesmo após a aposentadoria. Andava de lá para cá, cumprindo distâncias rápido demais para a idade dela, dando a impressão de que estava se teletransportando entre os cômodos apinhados de móveis ainda por montar, desfazendo as dezenas de caixas da mudança, achando cantos improváveis para as minhas tralhas e as tralhas dela, dando atenção, ao mesmo tempo, a todos e a ninguém, absorta na sua própria realidade particular de urgências incompreensíveis e onipresença fantástica que só uma mãe é capaz de ter. A coisa toda tinha certa graça de comédia cotidiana, de conversas batidas e desencontros que pareciam recortes de filmes, trechos de roteiros, cenas que te arrancam risada porque nelas nos reconhecemos com as nossas neuroses coletivas que se chocam eventualmente.

Todos os dias – todos mesmo – ela parecia acordar ligada nos 880 volts, o quádruplo do normal. Era capaz de executar diversas tarefas diferentes simultaneamente, bastante apressada como se seus prazos estivessem sempre se esgotando. Revirava papéis acumulados por décadas enquanto organizava atividades para o dia, atendia telefone, interfone e campainha, dava ordens para serem cumpridas imediatamente, conselhos para serem seguidos irremediavelmente, transmitia recados, requeria atenção sobre este ou aquele assunto. Desandava a fazer perguntas sucessivas que perderam o contexto depois que saí de casa e que se tornaram ainda mais embaraçosas quando me vi obrigada a retornar, tais como “Vai voltar tarde?”, “Já tomou banho e escovou os dentes?”, “Você não quer emagrecer, minha filha?”. “Não, mãe, na verdade meu sonho na vida é engordar até entupir todas as artérias e virar uma massa gordurosa amorfa que a senhora vai ter que guinchar pela janela sempre que eu tiver um infarto”, mas eu nunca respondia isso, claro. Os objetos da casa inteira mudavam tanto de lugar que qualquer pessoa que não estivesse habituada à velocidade das variações de intenções, ânimos e humores da minha mãe, talvez pensasse estar a presenciar eventos paranormais. Às vezes eu pensava que ela precisava mesmo é de um exorcismo.

Parecia viver em universos distintos e inacessíveis – pelo menos para mim -, em algum lugar entre o desespero angustiante e a tranquilidade acarpetada, migrando de um para outro, transitando entre um e outro, de maneira imprevisível, sem deixar pistas nem evidências de onde estaria no próximo minuto. Revezava gentileza e ferocidade em ritmo alucinante, incitando indulgência quando fazia alguma bobagem e dedicava seu olhar despretensioso, sorrindo um riso envergonhado, descomplicado e honesto de quem diz “Foi sem querer querendo”, então eu sentia vontade de abraçá-la tão apertado, apertado até soltar caldinho, e nunca mais largar. Por outro lado, especialmente quando minha mãe julgava ser uma ideia genial tirar da coleira a sua ursa desembestada, suscitava em mim um desejo colossal de esfregar a sua cabeça em uma parede de chapisco até os olhos lhe saltarem da cara e nunca mais parar. Porém, eu preferia deixar meus instintos de lado. Bem de lado.

Após promover o caos, ela ia se esgueirando sorrateiramente, pé ante pé, de mansinho, como quem não quer nada feito criança despistando alguma travessura, acreditando ser dotada de inequívoca discrição, até chegar no seu quarto. Gostava de dar a desculpa do jornal local após o almoço para se afogar em um sono sepulcral, profundo, sagrado e que em hipótese alguma deveria ser interrompido sob aplicação de pena severa por esse delito. Sempre desconfiei de que era essa a sua tática para recarregar as baterias somente para repetir tudo de novo, de novo e de novo até o apocalipse da Terra.

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