Arquivo | março, 2016

a necessária eficiência de um criado de hotel

31 mar

Desde a tenra juventude eu acreditava ser a maior articuladora de assertivas irreplicáveis. Passado o tempo, a maioria delas decidi estúpida não por me terem dito nem tampouco por me terem enfiado goela abaixo, mas por ter aprendido a pensar sozinha e, sobretudo, aprendido a descartar lixo apropriadamente. A lógica, a princípio, era tão elementar que beirava o ridículo: Bem como não se guarda um pedaço de papel higiênico mijado, por exemplo, também não se deve guardar na cabeça as ideias impregnadas de sujeira e, portanto, estéreis.

Dei início, finalmente, a uma faxina completa em todas as esferas da minha vida que durou anos a fio. E no que concernia a limpeza de estigmas, tabus e paradigmas, eu me descobri tão eficiente quanto um criado de hotel. Limpava, saneava e, no final, deixava um chocolate suíço no travesseiro.

Adquiri um hábito extremamente neurótico. Não aguentava mais ver cômodos sujos que logo eu me armava com espanador de pó, vassoura, panos úmidos e aspirador, pondo-me a desvirar do avesso a cabeça e o coração. Investigava, utilizando a nova habilidade de perita, cada setor, cada canto que, inevitavelmente, acumulava poeira e minúsculos cristais de sujeira que costumam passar despercebidos, por preguiça ou por desleixo.

Certo dia, percebi que algo ali simplesmente não cheirava nada bem. Por onde andava sentia um insuportável odor de merda. Olhei as solas do par de tênis surrado. Nada. Olhei as solas do par de chinelos jogados no canto do quarto abafado. Nada. O cheiro de merda fresca continuava pairando no ambiente e ia piorando conforme fazia mais calor. Girei nos calcanhares e corri para o guarda-roupas, puxando, nervosamente, as caixas de sapatos para fora. Examinei um a um, fazendo uma tremenda bagunça. Nada.

Joguei-me no chão, arquejando, com os braços abertos, a cabeleira esparramada em volta da cabeça como milhares de tentáculos negros de um polvo moribundo fora do seu habitat, pálpebras cerradas, o suor ionizado escorrendo pela nuca provocando suaves coceiras que não chegavam a incomodar, as mãos empoeiradas – não suporto ficar com as mãos sujas – tocando com leveza o sinteco liso, procurando ranhuras discretas com as unhas compridas e mal feitas, as pernas esticadas e relaxadas. Comecei a respirar calma e lentamente, primeiro enchendo de ar os pulmões lacerados pela nicotina em excesso, em seguida devolvia o ar que havia tomado emprestado, agora tão morno que parecia ter vindo dos recônditos da minha perturbada existência.

Deitada ali, na posição que remetia ao símbolo máximo do cristianismo, fiquei pensando em como a vida era mais simples antes de ter a consciência despertada. É verdade que era mais simples, entretanto, era mais vazio também, oco, incompleto, vulgar. E aonde quer que eu estivesse, independente de com quem estivesse, uma angústia feroz e ritmada pulsava bem no meio do meu corpo, como se fosse rasgá-lo em um trilhão de retalhos de dentro para fora. Não pertencia àquilo, não pertencia a nada e nada pertencia a mim.

No princípio, interpretei como sendo algo sintomático de alguma doença que se manifesta no organismo. Ledo engano. Quando a beleza e o horror da vida se revelam subitamente em passe de mágica, a alma adoece, o corpo perece, e se a consciência não resistir, as pessoas acabam se matando, ou matando os outros, ou os dois.

É um raciocínio fácil de entender: Olhar cruamente a realidade que constitui esse lixo a que se nomeou vida requer estômago forte, caso contrário, sempre dá uma merda danada, as pessoas enlouquecem e ficam andando por aí amalucadas, sem saber como agir.

Ainda largada no chão, lembrei com preguiça sobre as antigas amizades e seus grandes dilemas essenciais à raça humana – como, por exemplo, a roupa do momento e o penteado da moda que deveriam usar –, sobre como conviviam, pacificamente feito vacas hindus, com suas rotinas blindadas, dentro das suas bolhas gigantes flutuando em algum universo paralelo exclusivo para pessoas ainda mais exclusivas, como se estivessem aprisionados em um comercial de margarina.

Não senti raiva, nem inveja, nem pena. Senti apenas um gigantesco e inexpugnável tédio só de olhá-las ali, como se não tivessem escolha, como se tudo o que eram capazes de fazer fosse apenas aquilo, o básico, o elementar. Gastavam quatro, cinco anos nas faculdades por obrigação, sem nenhuma intenção de fazer algo relevante. Educavam-se apenas o suficiente para o enriquecimento, para a ascensão social, e por isso continuavam medíocres. Qual o sentido disso? Como se a aquisição de uma bolsa, um carro ou um silicone nos peitos pudessem engrandecer verdadeiramente alguém de alguma maneira.

Eu sabia que tudo o que as pessoas precisavam era de uma única chance para Morpheus lhes oferecer a pílula vermelha da Matrix para desviar o curso, mostrá-las outras possibilidades em novos cenários dinâmicos. Transportá-las para um lugar maravilhoso onde as pessoas expelem flatos fedorentos, e quando choram ficam bastante feias, e quando bebem ficam bêbadas, e todo esse tipo de coisa que acontece com pessoas reais.

Aquela porcariada toda se tornou indigesta demais, não vingava de modo algum, não dava “sustância” – e nem substância -, e o ódio que se erigia dos confins da alma até o mais longo fio do cabelo desgrenhado já não se alicerçava em absolutamente nada porque não havia nada em que se apoiar. Por fim, passei, em braçadas ágeis, uma vassoura fantástica em todos eles como se estivesse varrendo minúsculos soldadinhos de chumbo, e em todo o resto inútil também.

Talvez eu tenha amolecido mesmo pela idade – ou pela própria vida, não sei -, talvez eu seja um desses espíritos velhos demais, de saco cheio dessas ninharias cotidianas que assassinam vontades. É, talvez. Porém, entre a incerteza do fato que expressa esse advérbio e a convicção dele, há uma cratera excepcionalmente gigantesca de universos que nem sequer ainda explorei.

Ah, tanto faz, o céu é o limite para quem é desassossegado por natureza.

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