Arquivo | dezembro, 2015

dominatrix

6 dez

Tenho chorado muito ultimamente. Uma velha negra, castigada pelo oxidar irrefreável do tempo e pela própria vida desgraçada a que, ironicamente, se apega, canta um canto triste, resignado, na boleia de um caminhão que se arrasta pela inóspita rodovia, embalando-a no perigoso cobrear involuntário, ritmado, junto das outras carcaças igualmente subnutridas com as quais ninguém se importa.

Para não contradizer-me logo de cara, digo que me emociono assim que ela colore meus olhos com sua aparição fantasmagórica, toda de branco, como estereótipo afro-descendente que é, em vestes que ultrapassam até os limites da modéstia consentida. Seco a lágrima que persiste em salgar minha bochecha e também o suor aborrecido da tez. Recomponho-me em retidão de consciência e vértebras, pensando que é uma bobagem, um desperdício, eu sentir tudo com uma intensidade dolorosa.

São todos eles bastante feios para o mainstream, porque desdentados para os comerciais, porque de aspecto craquelado pela aridez que impossibilita a aderência dos disfarces profissionais, porque escondê-los do mundo jovem e sexy é esconder também a pavorosa miséria que ignoramos, convenientemente, para fingirmos que tudo está muito bem, obrigada.

Ainda assim, mesmo fisicamente desagradáveis, são eles que conferem a aura de respeitabilidade à história contada para vender, o único elo que nos compele à realidade que negamos com a veemência com que nega um criminoso o seu delito. É desgostoso ver tanta pelanca e tanta pobreza ao mesmo tempo. Muda o canal!

Muda a cena. Aceita a novela. Come a novela. Rumina a novela até o seu fim. Órfãos. Muda o canal. Muda a cena. Aceita a novela. Come a novela. Rumina a novela até o seu fim. Órfãos. Décadas se atropelam mas o público, que escracha quem é bom de cama, é muito bom na modalidade do sofá, no tédio vazio e pouco imaginativo do sofá. E os mesmos espectadores continuam ali, de modo que suas lembranças estão intrinsecamente alinhadas às programações das emissoras, envelhecendo com elas.

Uma multidão que é dominada pelo medo, ufania e ignorância através da exploração do seu medo, ufania e ignorância particulares. A manada, pacífica e estúpida, está dispersa com todo o orgulho, soberba e arrogância que lhe cabe, com seus livros de auto-ajuda debaixo dos braços, com suas receitas infalíveis para a felicidade do rebanho e seu silêncio coletivo, que dizem ter algo a ver com técnicas meditativas de abstração budista, mas que não passam da mais completa irreflexão por preguiça.

Desligo a casa inteira e fico deitada no escuro, fumando, ouvindo minha respiração misturada ao assobiar sombrio do vento pela fresta da janela. Não me apetece mais nenhum espetáculo televisionado da tragédia humana – pelo menos por hoje. É, eu tenho chorado muito ultimamente: sou uma sentimentalista inveterada, incorrigível.