Arquivo | novembro, 2015

seguindo em frente

20 nov

À certa altura da minha insana caminhada, percebi-me de frente à bifurcação. A trilha da esquerda era, a princípio, uma reta enfeitada de eucaliptos nos dois lados, tal qual a longa entrada da velha fazenda da infância, que me conduziu a qualquer coisa próxima de paz e segurança. A da direita, por sua vez, parecia ser o que viria depois da saudosa idade tenra, com as migalhas do futuro espalhadas no chão em meio aos estilhaços miúdos de algo que se quebrara – talvez a inocência, não pude identificar -, com rostos borrados e incomodamente conhecidos até onde me era possível enxergar. Espertalhona que me sentia, tomada por inclinação irresistível, dei um passo a frente em direção ao passado reluzente que me sorriu um riso lindo e tentador. Minha ação, em truque de mágica, freou-se como se ali houvesse uma parede. Tentei dezenas, quiçá centenas ou até mesmo milhares, de vezes sem obter nenhum sucesso. Debatia-me compulsivamente, rangendo os dentes e vociferando insultos. Não tenho certeza de quanto tempo insisti naquela bobagem, mas quando dei por mim, já havia completado vinte e oito anos, estava arrebentada e sentia-me exausta pelo inútil, estúpido e prosseguido esforço que me manteve estática, com surpreendente determinação, até então.

Como não havia meios de seguir por aquela estrada eleita favorita, tomei a outra por falta de opção e nada além, com uma tremenda e incorrigível cara de cu.

Uma perna depois da outra, era uma atividade bastante simples que, naquele momento, havia se transformado na mais ridícula imperícia. Recitava, mentalmente, as mais diversas frases motivacionais de agenda pois a cada passada, era acometida por uma dor aguda, cega, de aparência mongóloide e tão inconveniente quanto um parente fofoqueiro ou um vendedor de Tupperware às sete da manhã no domingo na porta da sua casa. Já estava escuro quando alcancei a civilização, então despejei meu olhar morto sobre os contornos plumbeados das edificações urbanas após o entardecer, e era tudo uma repetição odiosa da vida caipira da cidade, dos hábitos vazios, das dissimulações repugnantes… Não podia voltar mas também não queria ir em frente. Há algo de muito errado comigo, falei em voz alta quando, a bem da verdade, eu só queria berrar para o mundo a minha profunda desesperança, mas não o fiz – naquela época nunca fazia. Engoli o choro que desceu arranhando a traqueia e se instalou no estômago como uma lasanha ao molho de urânio. Erght. Regurgitei o ar quente de quase verão, precipitando o vômito que também trancafiei nos confins do organismo, só porque achava o máximo demonstrar força emocional. Era assim que costumava agir, de modo que internamente eu me assemelhava a uma prisão superlotada na diligência da tragédia subdesenvolvida.

Nenhuma ONG veio ao meu socorro, nenhum militante, nenhum defensor dos direitos humanos, eu era insignificante demais para receber auxílio, classe média demais para alguém sequer notar que eu também sofri os horrores da vida. Não há ninguém que se importe com meios-termos, com gente pela metade. Fui arrebatada pelo mais aterrador sentimento de abandono, pois não havia um maldito humanista que se dignasse a sentir empatia por mim e meus pares. Estamos sós na sordidez do mundo, lidem com isso. Ou simplesmente aprendam a conviver com a suprema desimportância das nossas existências anônimas e meramente estatísticas. E não se atrevam vir com conversa mole de igualdade diante de tamanha incoerência. Aliás, a incoerência é uma das irmãs da hipocrisia.

O céu inclemente decidiu despejar sua fúria úmida, desprovida de preconceitos, atingindo a todos e cada um. Não procurei abrigo e nem desejei que uma sombrinha brotasse em minha mão. Aproveitei a água da chuva para disfarçar o choro de impotência e solidão. Segui em frente como tinha mesmo que ser, e fui.

 

[ Dedico esse textículo aos três amigos que perdi esse ano. Pessoas muito melhores e bem mais talentosas do que eu. Ainda que não faça muito sentido eu ter sobrevivido a vocês, vou continuar só porque tem mesmo que ser e quem sabe um dia a gente se vê…]