Arquivo | agosto, 2015

do princípio do fim

21 ago

O desinteresse é a arma fria e inescrupulosa da desesperança.

É olhar o rosto enamorado e não sentir a tépida esperança, mas um profundo fastio.

Primeiro a desesperança

E só depois dela o tédio, persistente

porque é contagioso, uma infecção sem cura conhecida,

um alerta máximo na OMS,

ou qualquer coisa assim que se ligue à ideia da irreversibilidade

do movimento de queda uma vez iniciado,

uma bola rolando ladeira abaixo.

À parte isso, a culpa – ou quiçá remorso,

ligado ao espírito por um vínculo indissolúvel,

permanente

e uma imagem idiota e borrada do “Eu te amo” antes poderoso,

dito com o apetite de uma besta mitológica

e que agora é só uma patética sombra distante, turva,

ou um eco, ou uma reverberação de sons retardados e deprimentes.

À luz do afeto desfeito, cata-se os estilhaços miúdos

numa tentativa com desespero infantil de rejuntar e colar

somente pra montar uma escultura ainda mais defeituosa que a que se partiu

e carregá-la com o cuidado psicótico de uma mãe neurótica,

junto ao colo oprimido e sufocado de dor.

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