Arquivo | junho, 2015

tranquilidade (aparente)

30 jun

Um vento mortificante atravessa a janela, jogando pra lá e pra cá, num balé tosco porque desordenado, as cortinas verdes novas do meu quarto igualmente novo e não sinto outra coisa que não seja paz. Há conformidade em absolutamente tudo o que me cerca, na disposição dos móveis, nas suas cores, nos poucos enfeites que possuo, alguns doados pela minha família, cacarecos de outros tempos preenchendo lacunas e vãos com suas lembranças e formatos cafonas; nos sons advindos da avenida com passos, motores, vozes, buzinas; nos ruídos das outras vidas com histórias distintas, nem por isso melhores ou piores do que as minhas; na paisagem que me conduz a essas histórias e a essas outras vidas de forma que também participo delas como uma espectadora discreta. Mas é tudo muito digno, devo dizer.

Há, ainda, certa aura de respeitabilidade aqui que foi conferida não por meu comportamento, ainda regido por resquícios erráticos da juventude cada vez mais distante, mas, quiçá, pela minha própria vontade transformadora que se reinventa e se sobrepõe na medida em que os dias se atropelam tornando-se meses e anos, e fico – de uma certa maneira – um pouco mais serena e apaziguada comigo mesma, disposta a aceitar cada vez mais o fato de que tudo tem o seu maldito tempo, independente da minha maldita pressa, da minha maldita rigidez, da minha habitual urgência de sei lá o quê, que sempre me conduziram por caminhos envoltos em uma nuvenzinha mórbida de tropeços, descompassos e dor. Era uma época nada digna, custa-me dizer.

Até coisas simples, como sentar a bunda na privada ou o café fresco logo cedo, têm algo próximo de calma e lucidez, os odores – do cigarro, daquele café fresco logo cedo ou das refeições solitárias que sempre detestei – imprimem sensações diferentes das que me acompanharam por anos a fio, que me atingiam na alma irremediavelmente, na maioria das vezes repletas de sufocante ansiedade, e que, a bem da verdade, me roubavam com a mais completa ausência de escrúpulos os sabores que tinha a vida e, não obstante, o próprio valor do simples fato de estar viva. Tudo conversa batida, envergonha-me dizer.

Era o peso do mundo tudo aquilo que eu conhecia. Um peso absurdo que eu fazia questão de depositar sobre meus ombros largos e carregá-lo estoicamente, como se fosse não somente meu dever cívico e moral, mas sim minha missão na Terra. Uma obrigação tácita de me preocupar com absolutamente tudo, desde a miséria na África até as pontas duplas do meu cabelo, por razões que de tão absurdas, e provavelmente ridículas, me escapam e não ouso sequer tentar descrever. Só sei que eu exercia com maestria o papel da heroína de merda nenhuma, quando depois de vencidas todas as batalhas sangrentas, enfim eu teria minha dignidade reavida e meu supremo ponto de vista provado. Tudo pura vaidade, machuca-me dizer.

Todavia, embora eu não possa afirmar com convicção absoluta e irretorquível de que estarei sempre tão espirituosa assim, considerando minha instabilidade emocional publicamente conhecida até a exaustão, o que me apetece agora é exatamente o oposto do que me apetecia até pouco tempo atrás. Claro que – isto eu já cansei de redigir em prosas ainda menos interessantes – como tudo na vida tem o seu revés, essa aparente sensatez e surpreendente ponderação necessárias pra cumprirmos todos os ritos sociais medonhos talvez num futuro, que é bastante chato imaginar, me mergulhem em um profundo estado de tédio, afinal, eu nunca tive o menor talento pra ser uma vaca hindu e sempre morri de medo de ter meu ímpeto alijado e minha fúria reduzida à pálida comodidade de uma existência sem brio. No fundo, é mais provável que eu esteja só pegando um fôlego nesse hiato de surpreendente tranquilidade, respirando com calma e parcimônia, pra poder enxergar um mundo menos cretino ali fora… E tudo isso foi redigido apenas pra eu reafirmar que não sou um ser humano castrado que aceita uma vida castrante. Aliviou-me dizer.

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