Arquivo | janeiro, 2015

súplica

31 jan

Renegue por um dia sua cama, os lençóis emaranhados, manchados de gordura, com rastros de cinza mal limpada e abre a janela empoeirada que trepida a cada marretada seca da obra ao lado e acima, sinta o cheiro do tijolo úmido da chuva impiedosa de ontem, a fumaça assassina dos escapamentos dos carros com motoristas indiferentes que transitam robóticos pela rua movimentada, enxergue a convicção de existência das coisas miúdas e imensas e chora, deixa chorar, deixa rolar a última gota salgada no seu rosto ionizado e permita sentir-se absurdo por isso, sem culpa.

Erga os olhos e faça sua súplica de inseto carente, contemplando a sua miudeza, ciente da sua miudeza, contente pela sua miudeza, imutável em sua miudeza, rompendo com a inércia arrogante, também sem culpa, transbordando humildade lúcida.

Suplica, pequeno! Suplica pela nudez explícita e tira a maldita roupa velha!

Dispa-se do cinismo, da hipocrisia, da super importância avariada, das certezas aftosas por isso inúteis, dos moldes idealizados por modernos escravocratas desprezíveis e impotentes, da dependência do rebanho, da individualidade forjada em crenças vazias, das crenças vazias, do desejo faminto e vazio de pertencer, da ânsia fútil de brilhar sempre por fora e nunca por dentro.

Suplica, pequeno! Suplica com força desesperada e encare-se com dor e raiva, e paixão colérica reluzente de estrelas despencando do céu em cima da sua sôfrega cabecinha.

Suplica, pequeno! Suplica porque a súplica é a única saída e também o início e o meio, e tudo que há na puta da sua essência que fora incontáveis vezes retalhada pelas afiadas navalhas do mundo, costurada às lágrimas outras incontáveis vezes com linhas e agulhas de frustração e desencanto, somente para serem violadas com ímpia violência e implacável determinação novamente, num estupro prolongado, inevitável e prosseguido da alma, antecipando o escolhimento de uma existência que poderia ser interessante caso não fosse escarnecida em sua forma e dignidade todo o tempo, tornando-nos cúmplices silenciosos de nossas misérias.

Ah, reconheço-me em você e te amo neste momento mais do que amei em minha vida inteira, mais do que amei os campos de lírios da velha fazenda que não cheguei a conhecer, mais do que amei nas cartas escritas ao grande amor da infância, mais do que amei um nascer da lua minguante em um céu estupidamente constelado e luminoso, sentindo o gelado da grama e do solo sob meus pés feios e descalços, mais do que amei sorvete de abacaxi francês, mais do que amei amar ou odiar. Ah, como te amo e reconheço sua dor como minha própria mazela, sua alegria como premissa indispensável a minha.

Ah, como te amo suplicante pequeno, por me reconhecer em você a cada tropeço hiper humano, a cada deslize que suscita nas autoridades morais um escandalizar petrificado de asco e pavor, a cada verdade particularmente sombria vomitada em esquinas que fedem a mijo antigo, a cada decepção que nos cospe no cume do inferno com uma lança enfiada no rabo, ou até mesmo a cada formiga esmagada pela superioridade da força humana seguido de um profundo remorso infantil.

Sou sua parte suplicante, sufocada e sufocante que escala, com as unhas compridas e mal lixadas cravadas na sua faringe, para escapar na forma de um berro feroz, cuja ira liberada vem das entranhas com um recôndito cheiro de justificada retaliação.

Oh, Deus! Como tenho tentado falar contigo!

Oh, Deus! Carrego tantas vergonhas quanto fios de cabelo possuo na cabeça.

Oh, Deus! Tenho o peso de uma rocha impossivelmente gigante nos ombros que carrego estoicamente, primeiro como hábito, e depois pelo compromisso tácito assumido porque resolveram que assim eu deveria proceder a partir do momento em que escolhi ser quem sou.

Oh, Deus! Disseram-me que eu deveria agir assim e assado, e quando recusei batendo a planta do pé, encheram a minha pobre bagagem de culpa e agora não há espaço para mais nada.

Oh, Deus! O Senhor poderia calá-los todos? Um a um, enchendo suas bocas com pães e peixes multiplicados pela sua santidade incontestável.

Oh, Deus! Há algum momento em que toda a humanidade repousa em falso júbilo para que impere o silêncio e enfim todas as minhas súplicas possam ressoar no Paraíso na forma de um lamento ancião nunca ouvido?

Oh, Deus! Não haverá mais cigarros e café disponíveis na cidade caso eu decida enumerar minhas súplicas até o fim.

Desço meus olhos suavemente marejados.

Meus dois gatos jazem deitados no tapete azul-turquesa da cozinha – comprado por uma pechincha na “Sarah Enxovais” na rua Batista de Oliveira -, eles desempenham magistralmente a função de tutelados distintos, de uma elegância que nunca tive, de um poder de abstração que emerge dos seus corpos programados por genes ancestrais, e que só vão sair dali caso eu saia daqui.

Estou sentada no banco de madeira feito a partir de uma lata de leite, eu finalmente choro, quero abraçá-los, massagear suas orelhas frias nas pontas e dizer o quanto me enchem de alegria, mesmo que o mundo se esforce para que eu sinta o contrário. Mas não faço, apenas os observo na gigantesca paz em que repousam.

Eles me amam e eu os amo de volta, percebo que me é suficiente neste momento.

Sinto que hoje é uma manhã diferente e quem sabe eu boto minha cara – supostamente conservada demais para a idade que tenho e pelos abusos que cometi – no mundo.

É que faz um dia bonito na Princesa de Minas, por isso decidi que mereço uma cerveja.

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