Arquivo | setembro, 2014

estereótipos e preconceitos de cada dia: uma questão de ponto de vista

26 set

Liana era uma jovem universitária rica, bom, pelo menos bem mais rica do que seus colegas de curso, que havia ido a concertos do The Strokes, MGMT e Foo Fighters quando morou nos Estados Unidos, viajado pela Europa, conhecido um conde em Mônaco com quem teve um affair no verão passado. Mas que, acima de tudo, desejava com a total bondade do seu coração que todos pudessem desfrutar as mesmas coisas que ela. Entretanto, a imagem do dinheiro, essa criação demoníaca que deveria ser abolida do planeta, a precedia.

Acontece, tristemente, que bastava a pobrezinha se aproximar das mesas de debate – sempre redondas pela metáfora social do círculo, a bendita coletividade etc – com seu peito inflamado pela vontade de mudança, que logo a desacreditavam porque ela não conhecia a realidade dos companheiros, cujos pais morreram de trabalhar em lavouras pra que seus filhos tivessem boa educação então não tinha o direito de opinar. Afinal, gente rica não pode querer nada genuinamente justo, apenas o Luís Fernando Veríssimo e o Chico Buarque detém essa prerrogativa e essa também é outra prerrogativa. As outras gentes ricas só desejam um golpe de Estado arquitetado pelos militares.

Sentia-se, além de envergonhada por sua situação financeira, excluída por não ser convidada para as rodas de poesia, rodas de carroça, nem pra qualquer tipo de roda que me venha à cabeça. Quis criar uma página no Facebook denunciando o preconceito que sofria, mas desistiu no último momento quando teve uma overdose acadêmica de postagens sobre a Tropicália, a Macunaíma, Marx, Ayrton Senna, Charlie Chaplin, Marilyn Monroe, Maysa, Caio Fernando Abreu, Desobediência civil (o título é mesmo instigante, já o nome do autor e a leitura são pormenores com os quais não se pode perder tempo, é claro, você já havia combinado de praticar slackline de leve com os parceiros pra salvar o planeta do caos ecológico e não pode desmarcar por nada nesse mundo), continuando, A culpa é das estrelas, Madonna, Lula, Marina, Dilma, Aécio, Jesus de Nazaré, Eduardo Jorge, Luciana Genro, Bob Marley, Emicida, Gentileza, Charlie Sheen, Albert Einstein, Gonzaguinha e Romário. Teve um estalo.

O conhecimento fora tanto e absorvido tão rapidamente que acreditou atingir a clarividência do Buda. Resolveu que precisava agir e precisava agir rápido. Primeiro, sentiu um arrepio mágico percorrer a extensão da sua espinha dorsal, depois, percebeu que desgrudar o rabo da cadeira era uma ação primordial pra iniciar seus planos, então foi ao closet e começou a retirar todas as roupas caras que tinha, não restando, portanto, nada exceto o que vestia, enfiou tudo numa mala da Louis Vuitton – cujo nome é complicado e o preço é indizível -, e foi à luta. Doou uma boa parte a um orfanato e o outro tanto trocou por roupas velhas em brechós descolados. Bagunçou os cabelos com afinco, rolou no chão pra incorporar a poeira cotidiana, e pronto, estava renovada. Mas faltava a mala. Que fim ela daria ao último resquício da porra da sua riqueza? Vendeu pra tia.

Com o dinheiro recebido ela comprou um estoque generoso de Cantina da Serra, ligou pros violeiros mais barbudos que conhecia na faculdade e convidou o resto do pessoal, por intermédio das redes sociais, pra uma reuniãozinha com muito som underground e coisa e tal. Apesar de relutantes, compareceram. O anúncio do vinho por conta da casa tornou seu empreendimento um grande sucesso. Todos se despediram com “vamos fazer isso mais vezes, querida” ou “tenho um vinil da Clara Nunes que você vai amar! Vai lá em casa pra gente ouvir” e até mesmo “beijos”, smack-smack em cada lado do rosto ainda muito bem cuidado pros padrões estabelecidos por seus mais novos melhores amigos, o que não foi observado devido ao teor alcoólico que imperava ali.

Estava tudo bem se embebedarem às custas da grana amaldiçoada da Liana porque agora ela possuía uma aparência que se encaixava perfeitamente ao meio em que havia se inserido, isso sem mencionar a nova e estilosa cabeleira roots que parecia ter sido usada pra limpar o cu de um elefante.

Enfim, de rejeitada a mais nova sensação do momento, a burguesa de merda ascendeu ao posto de expoente revolucionário e estandarte da cultura alternativa. Tornou-se onipresente em qualquer evento pró-artistas-desconhecidos, pró-anti-testes-em-animais-mesmo-não-conhecendo-outra-alternativa, pró-vamos-destruir-matrizes-energéticas-e-não-entendo-o-que-colocar-no-lugar, pró-tribos-indígenas-que-não-tenho-a-menor-ideia-do-que-são-ou-fazem, pró-professores-que-nunca-respeitei, pró-música-ruim-que-preciso-fingir-gostar, pró-anti-transgênicos-esqueci-que-a-vacina-contra-a-meningite-também-é, e toda a sorte de pró alguma coisa ou pró-anti qualquer coisa.

Liana alcançara com inegável mérito o verdadeiro triunfo da aceitação. A juventude ativista é algo mesmo pelo qual devemos nos orgulhar, e apenas dela, o resto é somente indigno…

… por uma mera questão de ponto de vista e uma boa dose de hipocrisia.

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suzana & ronaldo

23 set

Ronaldo disse a ela, com toda seriedade cabível ao seu teatro habitual, que só queria protegê-la da dor da verdade. Ele costumava dizer esse tipo de coisa panaca sempre que não tinha argumentos que sustentassem as suas escolhas, já que assumir responsabilidades nunca fora nem de longe seu melhor talento. Pra executar a esquete com maestria, fazia questão de que seu rosto adquirisse certo ar de inocência infantil, retilíneo, franco e declarado, de modo que quem o olhasse não visse um aspirante a malandro acovardado pelas consequências, mas uma criança refugiada de algum conflito horroroso no Leste Europeu.

O corpo curvado pra frente, cara a cara com Suzana, que examinava com desprezo o esforço sobre-humano do rapaz, tentando convencê-la de que havia alguma dignidade afetuosa por detrás das merdas que ele cagava pela boca como se ela inteira fosse uma privada, de que mentia, insultando sua inteligência, somente por amor. Depois arquitetava duas lacrimejadas impactantes – ou três, dependendo do grau do erro -, forçava o rosto contra o dela pra receber um beijo porque assim tudo ficaria bem. Um beijo selaria a conversa, inocularia a gravidade da deslealdade, dariam as mãos, tomariam cerveja discutindo futebol ou basquete e ele não seria obrigado a se encarar de frente, ouvindo da sua mulher que ele era um mostro e ter de reconhecer nele mesmo o monstro sobre o qual ouvia. Admitir dá trabalho. Ele não queria ouvir, continuava apenas se enganando, distorcendo a verdade, porque assim teria o respaldo necessário pra continuar a ser um canalha. Escolhera o caminho mais fácil porque sofria de preguiça moral. Suzana se deu conta, num estalo, de que havia diagnosticado a nova síndrome do século que assola a humanidade aos milhões.

Ela não acreditava, ele sabia que não, aliás, ela nunca mais acreditou em nada desde muito tempo atrás, o que ele também sabia, embora sua consciência não se incomodasse nem por um momento a não ser que o incômodo o afetasse diretamente. Mas Suzana aceitava o que lhe era oferecido por uma malícia da esperança de que “amanhã vai ser diferente, eu sei, ele prometeu”. Ia embora pra casa com o coração apertado, membros dormentes, veias e artérias congestionadas de dor. Ronaldo, por sua vez, estufava o peito triunfante, orgulhoso por ter se safado outra vez e seguia a vida cheio de razões pra tudo, de justificativas pra tudo, de explicações prontas pra tudo, de indignações pra todo questionamento que recebia já na defensiva.

Os meses se consumiram rapidamente e o amor de Suzana parecia se extinguir na mesma cadência alucinante, encontrava-se preso por um fio tensionado demais que poderia romper a qualquer instante. Disse isso a Ronaldo, que tomou como uma ameaça vazia de uma mulher rancorosa. Mas Suzana, ao contrário, não enganava o homem vitimizado a sua frente, não dizia por dizer, não amava por amar e nem desamava por desamar. Avisou porque tinha que fazê-lo, porque sua consideração por ele a direcionava pra completa franqueza.

– Eu já não te amo mais como antes, Ronaldo. Você está destruindo meu sentimento.

– Eu sei…

– Você voltou ao marco zero.

– Eu sei que todo o esforço que eu fiz pra fazer você confiar em mim foi por água abaixo. Errei de novo. Eu só te faço mal… Eu sou um merda!

Esse era o grande truque de Ronaldo: dizer mentiras próximas da verdade, conferindo um ar de respeitabilidade irônica pelo suposto arrependimento.

– Você não é um merda, só age como um merda. Mas estou inclinada a te dar outra chance se você estiver disposto a me reconquistar, a ser honesto comigo.

– Suzana, eu te amo. Nunca amei ninguém assim. Sou capaz de dar a minha vida pela sua! Prometo que nunca mais vou te deixar no escuro, não tenho porquê fazer isso. Nunca tive. Sei que se estamos assim, se você desconfia de mim, é por eu ter mentido, coisa que nunca deveria ter feito.

Suzana, otária que era, depois de ouvir as cafonices ensaiadas de Ronaldo e que realmente gostava de escutar, acabava sempre dando outra chance, argumentando que as partes boas faziam os problemas serem irrisórios. Mas não eram. Ela aprendeu com o namorado a mentir pra si mesma. Ronaldo acreditava que sempre seria perdoado, que sua parceira estaria sempre ali disposta a desculpar e a tentar passar por cima porque sentia um amor maior do que o mundo. Suzana acreditava que toda vez seria diferente porque ele seria capaz de morrer por ela e isso era um amor maior do que o mundo.

Exaurida pelas batalhas diárias que lutava sozinha e pelos dois, ela assistiu Ronaldo decidir romper o fio que mantinha seu amor por perto e deixá-lo partir. Ele nunca se explicou, ela também não procurou nem saber. Sentia-se consumida demais, exausta demais, cansada demais pra requerer qualquer coisa por não ter certeza de que ouviria a verdade, ao menos pra variar um pouco. Ronaldo era só um moleque de quase trinta anos e Suzana era uma mulher de quase trinta anos. Talvez essa fosse a tal diferença irreconciliável que atropela tantas vidas promissoras por aí.