Arquivo | agosto, 2014

apenas um dia ruim

30 ago

Adriana ouve o celular esgoelar mas não se apressa mais pra atendê-lo, apenas fica ali, imóvel, olhando o aparelho girar, tocando Sexual Healing do Marvin Gaye porque gosta muito dessa música e quer ouvi-la um pouco mais, a introdução dela faz demorar, sabe? Aquela pressa, antes violenta, desacelerou e pra velocidade outrora diligente, confessa já não ter mais fôlego, estou ficando meio velha, diz sorrindo um riso sem graça de quem quer justificar novos hábitos anti-sociais. Seu coração não palpita em ondulações radiais que lhe causavam tremores da raiz do fio de cabelo até a ponta do dedão do pé. Dos espasmos, dos estímulos nervosos, das erupções neurais que a conduziam pra frente sempre meio estabanada, aos tropeços, com joelhos roxos, restou um caminhar mecânico e paciente que não urge e nem reclama aligeirar, tornou-se apenas um hábito repleto de preguiça.

Seguido de um suspiro carregado de fastio ela toma o telefone nas mãos com alguma convicção, quase nenhuma. Passa o polegar em cima da tecla “Atender”. Hesita. Se não o fizer, poderá dizer que foi mal, estava no banho ou foi mal, não ouvi tocar. Perdera as contas de quantas vezes, nos últimos meses, tinha sentido essa mesma vontade de inventar desculpas paspalhas pra não se ver envolvida em diálogos tépidos, com obrigatoriedades tácitas e certas formalidades cabíveis apenas em um relacionamento capenga.

Com seus olhos aflitos presos à pessoa da foto que já amou demais, resolve que vai atender. Falam pouco sobre amenidades que soam ou presumidas ou frouxas, como se fossem ditas sem força, sem convicção, sem substância, sem tônica. Soergueu-se, tão ereta quanto possível pro corpo humano e ouviu outras frases soltas de assuntos que não tinham objetivo. E curvou-se, com a tristeza sentada nas suas costas. Achava deprimente o tédio que haviam atingido sozinhos, sem a ajuda de ninguém. Ele cuspia uma palavra atrás da outra como se estivesse jogando o bingo das frases de músicas do Djavan. Diálogos obscuros de Açaí, guardião.

Não tinham mais uma conversa, aliás, aquilo não configurava uma conversa em primeiro lugar, não passava de um dever de casa que se faz nas coxas porque tem que ser, porque vale ponto e se evita falatório. Duas frases: uma dita por ela levantando alguma questão, como um livro desgraçado de bom ou o novo álbum incrível de um artista fenomenal, e outra dele pra encerrar o assunto, quando poderiam, portanto, passar ao próximo tópico. Pra então, quando desligassem, ambos conseguissem se sentir convencidos de que aquilo é que é uma conexão de verdade entre almas gêmeas, que sortudos nós somos. Era de dar dó e ela se corroía por dentro, mas nunca dizia, talvez estivessem tendo apenas um dia ruim.

Quando ambos julgaram ser o suficiente e encontraram a brecha propícia, despediram-se despretensiosamente com um beijo, fica com Deus. Ela voltou a encarar o celular, observou a foto fixa que depois desapareceu abruptamente e pensou que “Esse é o homem que vai me comer pelo resto da vida.”

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conto da pesada: a lenda do pastor hortifruti

29 ago

Essa é a história de um homem. Não de um homem qualquer, escória de botequim que bate cartão na zona e vende a mãe pros amigos da faculdade pra voltar pra zona. Não… Essa é a história de um chefe de família, de um notório líder espiritual, que em seus cultos demonstrava grande eloquência pregando a palavra de Deus. Conhecia as escrituras sagradas de cabo a rabo. É sabido que esse cidadão, de hábitos e costumes modestos, tinha um enorme potencial para assumir o posto do líder messiânico que salvaria a alma dos fiéis até dia do Julgamento Final, não fosse por sua trágica obsessão: o coroa tinha mania de enfiar alimentos no cu. Frutas, grãos ou legumes, não importava. Não fazia a menor distinção entre cor, tamanho e formato. O cara gostava mesmo era da sensação de estar empanturrado até o talo, mas sempre culpava o Capeta.

Tudo começou em uma sexta-feira 10, é, 10 de setembro. Durante o culto não demonstrou nenhuma variação comportamental e não houve nada que ocorresse além do imaginado: orou, pediu aleluias, obrou, desencapetou, orou um pouco mais, obrou de novo, gritou por aleluias, bateu palmas, desencapetou outro tanto de gente, passou a cesta pra doações e esses tipos de coisas. Ao final, aconselhou uma moça que se encontrava extremamente perturbada por seu padrasto estar com suspeita de encosto, até que se foi com a sua orgulhosa consciência limpa e sua esposa obesa. Perfeitamente normal, como já havia sido dito.

Em casa, após uma refeição acolhedora que só um gordo é capaz de preparar, recostou-se ao sofá da sala de jantar de modo que sua enorme mulher pudesse, de algum modo fantástico, aninhar-se em seus ombros estreitos pra assistirem ao último culto do dia pela televisão. Preces pra lá, preces pra cá, choradeira moendo, a gritaria comendo solta e o Pastor Hortifruti começou a dar indícios de que algo ali já não cheirava bem. Por fim, levantou-se em sobressalto, rodopiou nos calcanhares, grunhiu, virou os olhos, deu uma batida de asas, e caminhou trôpego até a mesa onde encontrou uma enorme faca.

À essa altura, a esposa gigante tinha seus olhos tão esbugalhados que poderiam saltar da sua cara diametral como bolas de tênis, porque seus olhos eram tão avantajados quanto a dona deles.

– Pelo amor de Deus, benzinho, larga essa faca! Dizia convulsionando de horror.

– Mulher, você que é bisneta da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha, da filha daquela prostituta que comeu a maçã, se não fizer como te falo, eu rasgo o seu homem do cu à cabeça.

– Pai eterno, tá amarrado em nome do Senhor!

– Amarrado vai ficar esse bostalhão se não fizer como mando.

– Tudo bem, tudo bem… Ela assentiu com voz trépida e pôs-se a perguntar quem era e o que queria, pelo amor de Deus.

– Eu sou aquele que você temeu toda a sua vida… Começou com voz sombria.

– Papai é você?

– Não, sua balofa imbecil. Eu sou aquele que povoa seus sonhos há anos… Recomeçou com a mesma voz sombria.

– Zé do Açougue é você? Sorriu maliciosa, apertando a boceta rechonchuda, agora úmida, entre as coxas monstruosas.

– Sua deformada, eu sou o Capeta, Lúcifer, Demônio, Tinhoso, Boi Zebu, Treco Ruim, Anjo Caído, Besta, Encosto da Pesada, compreende?

Ao ouvir “Encosto da Pesada” a ficha finalmente caiu. A dona expeliu seguidos flatos de nervoso. Estremeceu-se toda, teve arrepios, calafrios, cãibra, dor de barriga, infarto, labirintite, faringite, meningite, câncer em metástase, AIDS, doença de Chagas, tudo ao mesmo tempo. Sua boca apenas se mexia por reflexo, pois não conseguia balbuciar nenhuma palavra, nem de espanto e nem de surpresa. Pensou que ia morrer.

– Bom, já vi que você é bastante estúpida, então serei breve: Vá até a cozinha. Abra a geladeira. Traga todos os legumes e frutas que tiver. Não fica me olhando assim, você fica parecendo uma vaca assustada. Anda logo antes que mude de ideia e resolva estraçalhar esse corpo como faria um Jedi de respeito.

– Ahn? GEDÁI? Não, calma. Já vou, já vou, já vou, já vou.

Vendo seu amorzinho à mercê de uma força tão poderosa, não lhe restava outra saída senão cumprir o cronograma do Coisa Ruim, ela sabia secretamente que só assim conseguiria salvar a vida do seu companheiro e fiel escudeiro de várias noites de oração na sarjeta com traficantes em processo de regeneração, crianças catarrentas, mendigos cachaceiros, pederastas e adjacentes.

Quando voltou quase caiu dura. O Pastor estava no sofá só de paletó, camisa social, gravata e sem calça, apenas com as meias, segurando as pernas arreganhadas pra cima. Aquilo é que era uma visão do inferno.

– Meu Deus! E sentiu o ar comprimindo seus pulmões.

– Traga essas coisas pra cá, sua inútil. Bote-as no tapete que vou explicar direitinho o que vai fazer.

Apavorada, a senhora depositou com cuidado tudo o que havia buscado e o espírito obsessor passou as instruções que ela foi recebendo cada vez mais boquiaberta, embaraçada e constrangida.

– Feche essa boca, mulher. Não vai precisar dela pra nada, e bem sabe que sua religião não permite que pague boquetes.

Então timidamente, embora determinada a acabar com o sofrimento do amado, ela se agachou ao lado das frutas e legumes, de frente pro cu do marido que mais se assemelhava a um obturador de câmera fotográfica, só que peludo. Regurgitou ar, sentiu o gosto azedo da refeição subir e mastigou um grãozinho de arroz ainda não digerido que veio junto, engolindo-o com o vômito.

Começou com coisas pequenas, como uvas, tomates-cereja e ameixas, o que pareceu ser o suficiente já que o homem parecia ter voltado a si estando bastante aturdido com aquilo tudo. Sentiu-se aliviada e, diante dos questionamentos do marido, se debruçou com afinco sobre os fatos para explicar o que acontecera ali da melhor maneira possível.

Ele disse que ouvia o que o Demônio dizia mas não tinha forças pra lutar contra, confessou se lembrar de tudo reforçando a ideia de que era uma vítima impotente diante do Mal. Caíram aos prantos abraçados, ele sendo quase triturado por aqueles brações fortes, mas ela estava emocionada e traumatizada demais pra que tivesse seu desabafo ininteligível interrompido. Disse à sua esposa, ainda, que jamais em toda a história bíblica houvera mulher com tamanha coragem e que no Céu os anjos de Deus tocavam trombetas em seu santo nome. Diante de uma declaração tão impactante, ela não pôde resistir e acabou deixando suas dúvidas, medos e receios pra lá. Jurou cruzando os dedos na boca – e isso é uma jura bastante séria – que nunca iria contar o ocorrido a ninguém.

Depois de meses desde a primeira possessão, o casal estava radiante como um raio de sol, em plena sintonia, independentemente de o Coisa Ruim visitá-lo cada vez com mais frequência. Para amenizar as desconfianças da esposa, o Pastor não parava de dizer, a quem quisesse ouvir e a quem não quisesse também, que sua mulher era uma santa com S maiúsculo, só não explicava o porquê, no entanto, ela se sentia importante, grandiosa, um ser de muita luz enviado pra agir como o cajado do Senhor, sendo assim, ela calava a boca e parava de cuspir farelo de suspiro no rosto do amado.

As coisas iam bem entre os dois e a igreja, bem, a igreja parecia cada vez ter mais fiéis cada vez mais devotos, cada vez mais piedosos, cada vez mais generosos e o caixa foi só enchendo. Como as possessões estavam se tornando severas e intermitentes, a mulher do pastor se viu obrigada e desviar cinquentinha aqui e ali pra suprir as despesas das compras. Ao contrário do que havia previsto, o que era uma uva, virou uma maçã, o que era um tomate-cereja, virou uma banana, e o que era uma ameixa, virou uma manga. A manga, entretanto, entalou.

– Peida, benzinho! Peida que faz força de dentro pra fora e me ajuda a puxar.

Ele peidava até quase cagar e nada. O cidadão que já tinha uma rolha de poço na cama, arrumou outra pro cu.

Tentaram incansavelmente até chegarem à conclusão de que não restava outra alternativa senão recorrer às vias médicas. O marido dizia veementemente que não, de jeito nenhum, o que vão pensar de mim, e ela, já com nenhuma paciência, disse que tudo bem, o cu é seu, não meu, não coloco nada nele, faça o que bem entender. Consentiu, cabisbaixo, exigindo unicamente que ela explicasse o imbróglio e deixasse bem claro que o Capeta era o causador de todo o problema.

Essa foi a primeira vez que os funcionários do hospital tiveram o contato imediato de primeiro grau com o Pastor Hortifruti e sua esposa, uma dama, diziam pelos corredores. Após um leve período de internação para a realização do procedimento cirúrgico, ambos saíram pela porta da frente onde não encontraram a imprensa. Ele com o peito estufado por ter sobrevivido ao feroz ataque demoníaco. Ela, por sua vez, parecia ter sido nocauteada vinte vezes diante daquela situação vexatória.

Frente ao pedido de divórcio que ouviu ao chegar em casa, ainda coxo, o Pastor jurou cruzando os dedos na boca – aquela jura bastante séria – que Deus finalmente, enquanto ele estava chapado de anestesia, havia falado com ele, tocado sua alma e dito que se pagasse penitências diárias de auto flagelação, rezasse duzentos Pai Nosso, duzentas Ave Maria, duzentos Creio em Deus Pai, nunca mais seria afligido pelas forças inferiores. A mulher acreditou, todavia, mal sabia ela que, em menos de um ano depois, teria de voltar ao mesmo hospital pra retirar um coquinho que quase arregaçou seu marido pela segunda vez.

FIM.