Arquivo | novembro, 2013

burocratas

28 nov

Gostaria de começar a contar a história dizendo que Lorenzo havia apagado o cigarro no cinzeiro e tomado um trago do seu bourbon, mas não, ele não fumava, era da geração saúde, ou tentava ser, mas que volta e meia gostava de fumar um baseado pra fazer uma graça e receber alguns tapinhas de aprovação no ombro. Então vou dizer que ele apenas deu um trago na bebida e lançou um olhar entediado à esposa e aos amigos, que insistiam em discutir sobre os benefícios da vasectomia, enquanto folheavam os livros sobre arte que ficavam na mesa de centro, como objetos decorativos de uma classe média aspirante à burguesa.

Nada daquilo lhe pertencia, nem a mulher, nem as amizades, nem os livros com reproduções do Picasso, nem o whisky, o jogo de sofá caríssimo comprado em uma liquidação, nem a mini-escultura da Vênus de Milo, nem o Monet na parede da sala de jantar, os porta-retratos ou qualquer outro item de decoração que odiava. Sua vida não lhe pertencia e ele não pertencia àquela vida. De vez em quando se esquecia disso e, mesmo não sendo senhor de si, permanecia ali preenchendo o ambiente com a sua grandiloquência habitual, como um vencedor na vida, como aquele que deu certo em todos os quesitos necessários pra subir ao pódio com a pompa de um imperador.

Sua boca perfeita demais se abria e balbuciava frases de efeito que, ao deitar a cabeça no travesseiro de penas de ganso, não acreditava ter dito porque sequer acreditava nelas pra tê-las dito. Às vezes, quando estava sozinho, frente a frente consigo mesmo, era tomado por uma vacuidade que se expandia por dentro e ele sentia, no latejar compassado, que iria explodir em mil pedaços. Nunca explodia. E também nunca fazia nada a respeito.

Aquilo estava se tornando cada vez mais frequente e cada vez mais incômodo. Resolveu ir ao psiquiatra. É uma leve ansiedade, tome algumas gotinhas florais e dentro de uma semana ficará bem, disse-lhe a médica, sorridente e calma, com seu tom apaziguador de xamã da modernidade. Por uma consulta de meia hora a 300 reais, qualquer filho da puta é capaz de ser amigável e condescendente com alguém. Por 300 reais a pessoa pagaria a consulta comigo, as piadas que eu contaria, os búzios e tarô que jogaria, o despacho e o mapa astrológico, a previsão do horóscopo pro ano inteiro e ainda sobraria pra algumas garrafas de vinho.

Passou-se um mês. Dois. Três. E após 1 ano, Lorenzo literalmente desapareceu do mapa, saiu pra comprar frios pra recepção de amigos e nunca mais voltou. Sônia, a esposa, vagou por muito tempo em bocas de fumo, hospitais, delegacias, e daquela exuberância ornamentada por roupas boas que sempre deixavam em evidência a mulher gostosa que era, sobrara somente algo próximo a um vômito ambulante, desconcertado e de olhar perdido que não se importava com mais nada. Depois de alguns meses, o telefone tocou e o alô do outro lado da linha precipitou a emoção dela do lado de cá. Sônia soluçava, puxava os trapos engordurados que vestia como se fosse rasgá-los, secava os olhos com violência, beliscava a coxa pra entender que era real, perguntando consecutivamente onde o marido estava, o que havia acontecido e quando ele iria voltar.

– Ei, Sônia, espere… eu não vou mais voltar. Estou na Ilha de Marajó, agora sou surfista da pororoca e uma banda de reggae quer fazer um clipe comigo!

– Mas Lorenzo… disse em tom hesitante. Um frio lhe percorreu a espinha, terminando na sua cara retorcida e de aspecto retardado.

– Sônia, você sabe que esse sempre foi o meu sonho, então não seja uma vaca egoísta. Eu estava completamente infeliz, não queria fazer vasectomia, eu quero ter filhos, muitos deles. E eu odiava aquela porra de sofá que tínhamos na sala!

– Nós podemos trocar o sofá! Nós podemos ter quantos filhos você quiser! Vamos viajar pra Machu Picchu!

– Sônia!

– E depois damos uma passada em Cancún, Miami e São Lourenço!

– Sônia. Sônia, me escuta, caralho! A índia que conheci está grávida.

Silêncio. Clique. O som arrastado da porta de correr que dava pra sacada do apartamento do 12° andar. Sônia espatifada lá embaixo, espalhada na calçada como um grande saco de bosta estourado. Vísceras e sangue por toda parte, e um respingar sem vergonha no meio da testa enrugada de uma senhora que passava ali na hora. Idiota, resmungou a velha.

Lorenzo pai de família, surfista e futuro ator de clipe. Cansado da sua existência burocrática, exausto de seguir e executar ordens como mandava o figurino, depois de uma crise de meia idade precoce, fugiu. Sônia, se reduziu a um empecilho asqueroso pros garis.

insubmissão com sabor de mau gosto – parte III

15 nov

Ah, meu nego!

Pois eu te digo que não há nada de errado conosco

ainda que caminhemos ridiculamente vacilantes,

bêbados, cambaleantes e aos tropeços por aí

dando continuamente o que falar pras bocas de sempre

e que sempre, ao invés de raramente,

escolheram a monumental incompetência do pensamento mediano

de quem se dedica ao outro esquecendo de si.

Por mais que tentem nos convencer do contrário,

e certamente o farão com a determinação que não têm pra outra coisa na vida,

que não nos falte a firmeza da convicção,

pra que não nos iludamos com facilidades aparentes

nem fibra, como coluna vertebral da índole,

pra que não abandonemos nossos princípios

e, tampouco, coerência de atitudes

pra que não submetamos a nossa vontade às opiniões dos outros,

desperdiçando um dom por fragilidade da determinação

tornando-nos reféns de ideias que não são nossas,

seríamos prisioneiros outra vez.

O tempo nos é caro e curto e é certo que não viverei pra tanto

considerando a obviedade da permanência efêmera,

pelo menos o suficiente pra assistir a apologia da franqueza

onde ela será celebrada e exultada como quem venera a um deus.

Há de chegar o dia em que uma única religião ética,

soberana, ubíqua, grandiosa, de uma luz tão sublime que nos custaria suportar,

irá reunir toda uma espécie e todas as outras espécies à nossa

em torno de um único propósito, ainda mais soberano, ubíquo e grandioso,

pra abandonar de vez as máscaras, tergiversações e outros subterfúgios cretinos

a que nos acostumamos tanto pra sustentar nossas bobagens mesquinhas,

que nos afogaram por milênios em violências e horrores

porque achamos que era natural agredir, suprimir, reprimir e violar,

mesmo que tenhamos uma visão hiperbólica de nós mesmos,

como o gato que se olha no espelho e enxerga um leão,

nos acostumamos a ser pequenos e termos atitudes iguais em tamanho.

Há de chegar o dia em que cultuaremos um único deus:

a franqueza.

Mas tudo não passa de um sonho idiota meu pro mundo,

preciso perder essa mania estúpida de delirar acordada.

 

Ah, meu nego!

Que se foda o mundo, que se exploda o mundo, que se borre o mundo

pois o mundo me é coisa em que cago em cima há tempos,

só não solte a minha mão pra você continuar a me arrastar por aí

enquanto essa entidade inclemente rege as nossas vidas

sem permitir que nós percamos coisa alguma,

e sei que nada será capaz de nos subjugar a ponto da domesticação

e riremos ainda mais dos narizes empinados e das caras esnobes

enjauladas em seus cubículos, amedrontadas,

contando vantagens embora estejam assim, então riremos ainda mais,

ao passo em que empurramos nossas cervejas goela abaixo,

fumamos nossos cigarros de filtro amarelo

e fazemos o nosso amor louco reluzir do cosmos ao centro da terra

numa fúria de raios, esporros, gemidos, terremotos e suor.