Arquivo | outubro, 2013

uma das verdades definitivas da vida

30 out
Gertrudes apagou o cigarro no cinzeiro abarrotado, soprou a fumaça, dirigiu-se, vacilante, ao armário e começou a puxar as gavetas cheia de um desespero completamente descoordenado, tirando caixas, jogando sutiãs, calcinhas, meias, camisetas amareladas, sapatos, tudo pra fora, e revirando fotos, bilhetes, números de telefones, buscando na memória mensagens antigas que conseguia lembrar a fim de obter alguma evidência pra convencê-la do contrário. Sua cabeça era uma tremenda confusão mas sabia que alguma coisa ficara pra trás. Ainda não compreendia bem ao certo o quê fora, se tivera sido a novidade e a empolgação, mas provavelmente nenhuma, ou se talvez tivera sido a leveza, a doçura e, sobretudo, a forma como um via o outro. E dessa coisa, perdida em alguma dessas curvas sinuosas pelas quais passaram acelerados e bêbados, sobrou uma saudade doida, do tipo que antes de saudade era outro sentimento impossível de definir, mas que tangia a felicidade extrema e que ela antes costumava se perguntar se seria possível alguém morrer de alegria. Pensando nisso, sentou e chorou numa clara demonstração de falta de auto-controle, babava e esfregava a cara como se quisesse arrancar nariz, boca, olhos, orelhas, e se olhava no espelho com toda a piedade que lhe era possível. Depois, ainda se debulhando em lágrimas, sentia um ódio do cão e arquitetava vinganças maquiavélicas, articulava discursos que nem Kant escreveu, pra depois se resignar e prosseguir a sua busca afobada naquela bagunça, somente pra encontrar a maldita certeza que escapou por entre seus dedos como uma neblina matinal.
Acontece é que era uma tarde feia, feia mesmo, e fria, fria mesmo, e eles estavam debaixo da coberta marrom e pelando, uma velha conhecida dos dois, que os havia acolhido por tantas noites e acabou com eles naquele verão que ainda se lembrava como se tivera sido ontem. Gertrudes sentia uma saudade louca de quando os dois assavam no quarto de Bonifácio, suando e fazendo um amor ainda mais alucinado da hora em que chegavam, bêbados pela manhã, muitas vezes sujos, até as tardes defumantes daquele tempo em que não se preocupavam com nada. Ela olhava dentro dos olhos de Bonifácio, de maneira retilínea e constante, enquanto segurava seu rosto entre as mãos finas e ele retribuía, acrescentando todo o amor e condescendência que ele sempre fora capaz de sentir, atingindo-a como uma espada bem no meio da alma. Não diziam muitas palavras porque não precisavam, o entendimento silencioso e mútuo era uma história velha pros dois, tão cúmplices.
– Você foi feito pra amar. Disse, finalmente, com os olhos marejados, e sorriu de dor, com um aperto incômodo no peito.
Bonifácil acenou afirmativamente embora não soubesse o que ela queria dizer de fato. A bem da verdade, não havia qualquer outra definição mais clara do que aquela, com um vernáculo específico no dicionário, “pessoas que são feitas para amar”. Era algo mais próximo a uma condição, a um estado de espírito propício pra determinada atividade, do que a uma característica ou a um adjetivo que se aplica ou se atribui a alguém. Ele pensava que havia nascido pra amá-la até os confins da vida e ela pensava que ele era apenas uma criatura do amor e que, se eles botassem um ponto final naquele momento, logo depois ele já seria capaz de amar outra pessoa e de dizer a essa outra pessoa tudo o que ele dizia a Gertrudes, e ela sabia que isso não conseguiria suportar.
E enquanto ia remexendo nas suas tralhas emocionais, colocando as coisas no lugar, desvirando tudo do avesso, num lampejo íntimo, como numa revelação interior, teve a compreensão que a certeza de que tanto precisava não passava de um conceito acessório desnecessário, era uma pequena palavra desumana em que deveria cagar em cima, jogar na primeira lata de lixo que visse pelo caminho, pois o olhar do Bonifácio excluía toda e qualquer necessidade dela, porque a presença dele ali era a própria certeza encarnada, viva, pulsante e latejante. No fundo, Gertrudes sabia que ele era o amor assertivo e real, assustadoramente real, encarando-a com convicção e firmeza, esperando a retribuição equivalente da sua parte, mas que parecia engasgar a cada vez em que o assunto se aproximava.
Secou os olhos, raspou a garganta e atendeu o telefone. Do outro lado da linha, a voz que dizia seu nome com familiaridade e carinho, também falava sobre uma tal saudade doida, doida mesmo, então se sentiram gêmeos de espírito outra vez, e se amaram com a veemência habitual. Pegou um lápis e escreveu num bilhete uma poesia besta de dias atrás.
Traçamos pra nós mesmos um objetivo translúcido
cuja nitidez nos escapa por um triz
e a sua verdade é tão definitiva quanto a morte
e tão rápida quanto a velocidade da luz.
Para alcançá-lo é preciso mais do que disposição
são necessários sacrifícios bíblicos
privações pelas quais nenhum santo passou
renúncias heroicas que ninguém jamais ousou
esforços que estão para além da própria humanidade.
E talvez, quem sabe,
se a vida agir com bondade,
poderemos transformar a merda em algo próximo de amor.
Mas nunca entregou.

“bota uma dentadura no cu e ri pro caralho”

8 out

O mundo está implodindo logo ao meu lado

e em meio ao caos fétido de uma guerra civil disfarçada

ouço as vozes enfadonhas pela repetição

que tentam me convencer sobre qualquer coisa,

de qualquer maneira

elas me mostram seus dentes clareados de artista

e me sorriem enquanto destilam o veneno

que está contido nas suas bocas arreganhadas.

Elas me sorriem sempre com uma cara que não muda nunca

canso-me só de assistir o esforço prosseguido desse sorrir automático

num fastio que rouba até a vontade de levantar da cama

e essa é a preguiça maior do que tudo que eu posso sentir.

Pessoas que lhe sorriem demais:

nelas reside o perigo maior,

porque inoculam sua peçonha em gentilezas

e em cada gentileza forçada vem a ponta dissimulada de maldade.

Ao passo em que a convicção que contém uma palavra rude

não abre prerrogativa a outra coisa senão a rudeza

porque o desafeto, franco e declarado, não fere nada senão o ego.

O mundo está se acabando de dentro pra fora

e em meio ao caos fétido criado pela nossa espécie déspota e corrosiva

ainda há aqueles que se viram pelo avesso,

cheios de um orgulho silencioso e de uma arrogância sem propósito,

por um único gesto cretino de aprovação.

Morrem e vivem por aplausos imaginários,

matam e sobrevivem por reverências fantásticas

e se sacrificam por ilusões rasas que não sustentam,

reduzindo a vida à busca incessante pela saciedade

dando de comer ao espírito, a aparência

e os vãos do resto, preenchem com a arriscada vaidade extrema

 

no entanto, eu que não sou radical,

prefiro a calma do decadente

e a companhia dos que estão à margem

portanto, brindo aos indigentes

aos viciados

às prostitutas (que cobram)

aos deformados

eu brindo aos desajustados desse mundo enorme que Deus esqueceu.