Arquivo | dezembro, 2012

brincadeira distorcida de criança grande

18 dez

– Não, eu não preciso de tantas justificativas que mais parecem discursos políticos ensaiados, frases simuladas e planejadas, porque já me sinto estúpida o suficiente, então seria de extremo bom tom que você dissesse logo que o sexo é sensacional e deixasse essa baboseira de lado, sabe? A gente encaixa, torcemos pro mesmo time e gostamos de encher a cara, eu sei, sei disso tudo, acontece que seria mais confortável caso você se limitasse apenas ao “só quero te comer”, não fico nem um pouco à vontade com esse papo de que você não me acha uma pessoa de merda, o que é difícil de acreditar pois eu realmente sou uma pessoa de merda e vou fazer alguma burrada no meio do caminho que será irreversível e já tentei alertá-lo um porrilhão de vezes e você ignora e, honestamente, não sei dizer se isso é bom ou ruim. Mas cá estamos nós dois atribuindo um pouco de decência a seja lá o que for isso que estamos fazendo. Eu muda, tentando achar uma forma de dizer de maneira compreensível o que penso, e você pensando que eu não quero papo, enquanto te olho de lado e observo sua expressão cabisbaixa, frustrada e magoada e aquilo é minha culpa e desculpa mas ei, eu quero conversar sim, só não sei como, ok? Sempre fui péssima falando, sério. Eu quero te dizer que não sei lidar com a expectativa alheia, nunca soube, não quero te decepcionar e partindo da premissa de que somos humanos falíveis, eu vou cagar com alguma coisa e sairemos magoados e separados e endurecidos e perderemos um pouco mais da mágica que ainda resta em nós e nos faz sempre tentar mais uma vez, não quero que você perca a fé. E eu gosto da sua fé e da sua mágica que você executa tão habilmente como se tivesse sido o mestre de Houdini, fazendo o truque mundialmente famoso que manda a centelha ruim pro inferno e deixa no lugar um gloss de morango com glitterdaqueles de criança, mas você não sabe o que é um gloss, nem glitter, muito menos umgloss com glitter então é melhor eu não colocar as coisas dessa forma, provavelmente vai me achar uma doida varrida ou uma retardada e eu só quero que você ache que está tudo bem eu ser como sou porque pra mim está ótimo você ser como é, recíproca é uma das coisas mais lindas do mundo. Meu olho ameaça expulsar a beleza de tudo que eu pensei pra te dizer e você continua com uma tremenda cara de cu e era tão melhor quando você estava sorrindo expansivamente no palco do seu teatro grandioso fazendo mágicas pra mim. Eu também sou uma mágica e você não sabe, meus truques são os asquerosos “estrago a pessoa adorada em sete dias” e “vou te frustrar até você me odiar”, mas quer saber? Esses são atos conhecidos e desgastados, quero me aposentar e passar a vez a um profissional muito melhor do que eu. Tento te contar da navalha que eu tenho atravessada nesse meu coração meio morto, zumbizado, meio sonso e derrotado mas não dá certo, minha dor te incomoda, deve ser chato eu falar de alguém que me tenha tocado antes de você e me ferido antes também, é melhor eu parar pra não te arrastar pro meu parque de diversões melancólico em um dia cinzento e triste. É tão difícil soltar a sua mão agora, mesmo tendo dito pra você ir.

Não foi. Ela aliviou. Beijaram-se.

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do gozo se vem e pelo gozo se vive

7 dez

Com uma das mãos ele desceu a alça da camisola de seda dela com a delicadeza que nunca teve, a outra tratou logo de embrenhar pelo occipital menor – aquele trecho que compreende a nuca e a parte de trás da orelha -, enquanto olhava dentro dos seus olhos escuros. Sentiu na pele áspera dele a pele lisa dela e a temperatura baixa daquele corpinho trepidante que poderia retorcer se quisesse. Mas não queria. Toda a gentileza e carinho eram apenas pretextos que dissimulavam a sordidez dos seus pensamentos. Queria comê-la ali mesmo sem se importar com as roupas ou se a camisola entraria junto como uma camisinha. Mas não podia. Amabilidade era o caminho moralmente aceito que o levaria até o par de vulvas que ela tinha entre as coxas.

De longe eram apenas silhuetas safadas no escuro, mas de perto não passavam de duas criaturas patéticas na noite que tentavam, sobretudo, dignificar um pouco essa qualquer coisa animalesca que conduz os seres humanos ao sexo. Pessoas… essas criaturas odiosas e repugnantes que são capazes de ferir e violar por uma gozada. De dizer para depois desdizer por uma gozada. De fingir por uma gozada. De mentir e ludibriar por uma gozada. De deixar um rastro de bosta, de tristeza e de horror por uma gozada. E uma gozada dura 30 segundos.

Acariciou sua bunda redonda, apertou seus peitos como um peão ordenhando uma vaca, ela correspondia com equivalente lassidão, deslizando suas mãos pelo corpo dele em um ciclo que sempre terminava no pinto. E os gestos dela eram como um hamster fazendo trajetos em uma gaiola apertada. Da casinha para a roda, da roda para a plataforma, da plataforma para a escada, da escada para a roda. Do pescoço para o peitoral, do peitoral para as costas, das costas para a bunda, da bunda para o pinto. Aliás, o homem é um pinto e pintos não são espertos.

O mundo está entupido de gente. Gente que se encontra abaixo da linha de pobreza, tem dez filhos e ainda quer uma gozada. Políticos que constrangem suas famílias por uma gozada. Até o PC Farias adormeceu, foi alvejado na cama e morreu de bobeira por uma gozada. O cara vai pra noite por uma gozada. A mulher vai pra noite atrás de uma gozada. E não, não recebem um troféu por isso, nem uma medalha de honra ao mérito ou uma estrelinha dourada no caderno como congratulação. O prêmio é apenas mais uma dúzia de gozadas, o que reduz uma espécie inteira a um grande e melado esporro.

Transaram como bichos. Ao final, ela deu de ombros e acendeu um cigarro. Não queria papo, só queria ver aquela coisa longe dali. Ao perceber isso, ele se mostrou um homem confuso e estúpido, perdido e sem condições de exercer a função secular que lhe foi designada de se sentir a última folha de coca da Colômbia após uma trepada. Pra duas pessoas que buscavam apenas orgasmos, até que estava de bom tamanho. Ela conseguiu e ele, apesar de tudo, se sentiu diminuído e usado. Tudo no seu devido lugar.