Arquivo | novembro, 2012

crônicas da carioca do brejo I – cantina da serra

20 nov

Cantina da Serra, um litro e meio de pura azia. Pra quem gosta de beber, é custo-benefício. Pra quem precisa beber, é a tal da azia, é mágica, é poesia, é um vinho do Porto a um preço camarada. Seis reais por garrafa e eu comprei apenas três, talvez me faça gastar mais com um médico no futuro. E enquanto leio Chuck Palanhiuk, minha irmã e meus dois sobrinhos, ambos em idades infantis, comem pipoca num ato ingênuo e religioso que já não tenho – deixei de ter quando saí do colégio jesuíta que me enfiaram em Juiz de Fora. Eles estão na sala que também é quarto, aliás, nem sabia que uma quitinete poderia ser delimitada em cômodos. Estou no meu lugar privativo ou algo que se assemelha a um quarto, mas só porque há uma pequena extensão da parede que divide o espaço maior, depois dessa delimitação há a pia dando a entender que aqui não é a sala de estar mas que pode ser considerado como cozinha. É estreito. Estou de frente para a lateral da geladeira, tenho uma visão em perspectiva do fogão, a pia está logo ali à nordeste e alguns centímetros à direita, além do meu colchão de solteiro tamanho P, há a parede que informa que aquele cubículo, que reduz ainda mais o meu espaço, é o único cômodo reservado, portanto, o banheiro. Excelente, porque cagar com plateia estaria muito além das minhas modestas competências humanas.

Comecei falando do vinho vagabundo que bebo, mas esqueci de contar meu primeiro contato em terras cariocas com o elixir que tem aliviado os sentimentos confusos da mudança. O encontro com o Cantina da Serra agora se revela como uma dessas mostras reais de amor à primeira vista e se deu no meu segundo dia no Rio de Janeiro. A fim de me exibir sabe Deus por qual razão, minha irmã conduziu um passeio a pé do Framengo até a Lapa, na casa dos seus amigos. Chegando lá estava a tal da Cornélia, bêbada e mais pentelha do que eu jamais estive. Gostei da criatura de cara e logo me ocorreu que “essa é das minhas”. Senti-me à vontade. Perguntaram-me o que eu gostaria de beber, disse que não costumava fazer distinção e metia qualquer coisa pra dentro, sendo assim, vieram com esse vinho escroto e excelente ao mesmo tempo. E eu mandei goela abaixo tudo o que serviram e quando a cerveja também acabou, resolvemos sair pra buscar mais. Pro inferno com a cevada, eu queria mais Cantina da Serra.

Decidi que iria manter a civilidade diante das crianças, porque ter uma tia bêbada está tudo bem. Em toda família sempre há um parente sem limites na birita, mas uma tia que bebe vinho no gargalo seria demais, então optei por um copo. Quem sabe eu deixe o mau comportamento pra madrugada, quando eu estiver embriagada demais pra executar funções simples sem destruir tudo o que está à minha volta, como abrir a porta da geladeira ou levantar pra mijar…

eu mesma em outro lugar

16 nov

Abri a porta e era o mundo
Botei os pés pra fora e era a vida
Andei e era o indefinido
Respirei e era o infinito
Acendi um cigarro e era o vício
Bebi no gargalo o vinho barato e era o hábito
Peguei o caderno e era a necessidade
Rabisquei algumas frases e era a mesmice
Não quis voltar pra casa
Não quis parar de beber
e era eu mesma novamente.